3.3 - Sacrifícios humanos e as festas dos fogos
Os costumes populares relacionados com as festas dos fogos da Europa, há certas características que parecem indicar uma prática anterior de sacrifício humano. Pessoas vivas agiram, com freqüência, como representantes do espírito das árvores e do espírito dos grãos, e foram imoladas como tais. Não há razão, portanto, para que não tenham sido queimadas, se fosse possível obter vantagens especiais levando-as à morte dessa maneira.
Dos sacrifícios humanos oferecidos nessas ocasiões, os traços mais claros são os que, há cerca de cem anos, ainda perduravam nas fogueiras de Beltane nas Highlands da Escócia, isto é, entre um povo celta que, localizado numa região remota da Europa e quase totalmente isolado de influências externas, conservara até então o seu velho paganismo, melhor talvez do que qualquer outro povo da Europa ocidental. É significativo, portanto, que os sacrifícios humanos pelo fogo — dos quais há provas indiscutíveis — tenham sido praticados sistematicamente pelos celtas. A mais antiga descrição desses sacrifícios nos foi deixada por Júlio César. As linhas principais do costume parecem ter sido as seguintes. Criminosos condenados eram escolhidos pelos celtas para serem sacrificados aos deuses nas grandes festas realizadas a cada cinco anos. Quanto maior o número dessas vítimas, maior se acreditava que seria a fertilidade da terra. Se não houvesse quantidade suficiente de criminosos, prisioneiros de guerra eram imolados para compensar a deficiência. Quando chegava o momento, as vítimas eram sacrificadas pelos druidas. Algumas eram mortas a flechadas, outras empaladas, e outras ainda queimadas vivas da forma descrita a seguir. Imagens colossais feitas de vime ou de madeira e folhagem eram construídas, e, no seu interior, eram colocadas pessoas vivas e animais de várias espécies. O fogo era então ateado às imagens, e estas queimavam-se com seu conteúdo vivo.
Essas eram as grandes festas realizadas a cada cinco anos. Mas, além dessas festas qüinqüenais, celebradas em grande escala e com um tão grande desperdício de vidas humanas, parece lógico supor que festas do mesmo tipo, mas de menor escala, fossem realizadas anualmente e que delas descendem linearmente pelo menos algumas das festas dos fogos que, com seus vestígios de sacrifícios humanos, ainda são celebradas a cada ano em muitas partes da Europa. As imagens gigantescas construídas de vimeiros ou cobertas com capim nas quais druidas encerravam suas vítimas nos lembram a moldura de folhas na qual o representante humano do espírito das árvores ainda é, com freqüência, enquadrado. Portanto, observando que a fertilidade da terra estava aparentemente na dependência da realização adequada desses sacrifícios, podemos interpretar as vítimas celtas, encerradas em vimeiros e folhagem, como representantes do espírito das árvores ou espírito da vegetação.
Ao que parece, os ritos sacrificais dos celtas da antiga Gália podem ser rastreados nas festas populares da Europa moderna. É na França, naturalmente, ou melhor, na ampla área compreendida pelos limites da antiga Gália, que tais ritos deixaram vestígios mais claros nos costumes de queimar gigantes feitos de vime e animais encerrados em estruturas ou cestos de vime. Esses costumes manifestam-se geralmente no solstício de verão ou mais ou menos nessa época. Disso podemos deduzir que os ritos originais dos quais são sucessores degenerados eram celebrados no solstício de verão. Essa dedução harmoniza-se com a conclusão, sugerida pelo exame geral dos costumes folk europeus, de que a Festa do Solstício deve, de um modo geral, ter sido a mais difundida e a mais solene de todas as festas anuais celebradas pelos primitivos arianos na Europa. Devemos ter presente, ao mesmo tempo, que, entre os celtas britânicos, as principais festas dos fogos foram, sem dúvida, a de Beltane (1º de Maio) e a de Hallowe’en (último dia de Outubro), o que levanta uma dúvida sobre se os celtas da Gália também não teriam celebrado os seus principais ritos do fogo, inclusive os que incluíam a queima sacrificial de seres humanos e de animais do início de maio ou no início de Novembro, e não no solstício de verão.
3.4 - Festas do Solstício de Verão
Em toda a Europa os camponeses têm, desde tempos imemoriais, o costume de acender fogueiras em certos dias do ano e dançar e saltar à volta delas. Costumes desse tipo podem remontar, segundo as evidências históricas, à Idade Média, e sua analogia com costumes semelhantes observados na Antigüidade contribui, com forte ocorrência interna, para provar que sua origem deve ser procurada num período muito anterior ao cristianismo. Na verdade, a mais antiga prova de sua ocorrência no norte da Europa nos é proporcionada pelas tentativas feitas pelos sínodos cristãos, no século VIII, para acabar com esses costumes, sob a alegação de que eram ritos pagãos. Não é raro que sejam queimadas efígies nessas fogueiras, ou que se finja nelas queimas umas pessoas vivas; há razões para acreditarmos que, antigamente, seres humanos eram realmente queimados nessas ocasiões.
Nas Highlands da Escócia, no País de Gales e na Irlanda, as fogueiras, conhecidas como fogos de Beltane, eram acesas antigamente com grande solenidade a 1º de Maio, e os vestígios de sacrifícios humanos eram, nesse caso, particularmente claros e inequívocos. O costume de acender fogueiras perdurou em vários lugares até o século XVIII, e as descrições da cerimônia, por autores da época, apresentam um quadro curiosos e interessante do antigo paganismo que sobreviveu na Inglaterra. John Ramsay relata: “Mas a maior das festas druídicas é a de Beltane, ou 1º de Maio, que era recentemente realizada em certas partes das Highlands com cerimônias extraordinárias. Nos últimos anos, a ela comparecem principalmente os jovens, pois as pessoas de idade mais avançada consideram-na incompatível com sua gravidade. Não obstante, várias circunstâncias relativas a essa festa podem ser recolhidas da tradição ou da conversação com pessoas bastante idosas que testemunharam essa festa em sua juventude, quando os ritos antigos eram melhor respeitados.
A festa é chamada em gaélico Beal-tene, isto é, o fogo de Bel (…) Como outros cultos públicos dos druidas, a festa de Beltane parece ter sido realizada em montes ou lugares elevados. Parecia-lhes degradante para aquele cujo templo é o universo supor que habitasse em qualquer casa feita por mãos humanas. Os sacrifícios que se lhe faziam eram, portanto, oferecidos ao ar livre, freqüentemente no alto das colinas, onde eram presenteados com as mais deslumbrantes vistas da natureza e onde estavam mais próximos da sede do calor e da ordem. E, de acordo com a tradição, era essa a maneira de celebrar a festa de Beltane nas Highlands nos últimos cem anos. Mas, desde o declínio da superstição, ela vem sendo promovida pelos moradores de cada aldeia em algum morro ou elevação em torno da qual um assento de relva era preparado para os espectadores. No meio era colocada uma pilha de lenha ou outro combustível, que antigamente acendiam com o tein-eigin — isto é, o fogo forçado, ou o fogo obtido pelo atrito de madeira seca (need-fire) e ao qual se atribuíam propriedades mágicas. O processo do fogo forçado era o seguinte: “Na noite anterior, todos os fogos da região eram cuidadosamente apagados, e, na manhã seguinte, o material para acender esse fogo sagrado era preparado. O método mais primitivo parece ser o usado nas ilhas Skye, Mull e Tiree. Buscava-se um pedaço bem velho de carvalho, no meio do qual era aberto um buraco, ao qual se aplicava então uma espécie de verruma da mesma madeira. Em certas regiões, porém, o mecanismo era diferente. Usavam uma trama de madeira verde, de forma quadrada, no centro da qual havia um eixo. Em alguns lugares, era preciso três vezes três pessoas, e, em outros, três vezes nove, se sucedessem, em turnos, para rodar o eixo ou verruma. Se alguma dessas pessoas era culpada de assassinato, adultério, roubo ou outro crime, imaginava-se que o fogo não se acenderia, ou que não estaria revestido de suas virtudes habituais. Assim que surgiam fagulhas devido ao atrito violento, aplicavam-lhes uma espécie de agárico que cresce nas bétulas velhas e é muito inflamável. O fogo assim obtido tinha a aparência de vir diretamente do céu, e muitas eram as virtudes a ele atribuídas. Acreditavam que ele era uma proteção contra feitiçaria e um excelente remédio para doenças malignas, tanto no homem como nos animais; também se supunha que ele fosse capaz de modificar a natureza dos mais fortes venenos.
Depois de acesa a fogueira com o tein-eigin, preparavam-se as comidas. E, tão logo terminavam a refeição, os presentes se divertiam algum tempo cantando e dançando em torno do fogo. Ao final do entretenimento, a pessoa que oficiava como mestre-de-cerimônias apresentava um grande bolo feito de ovos e recortado nas bordas, chamado am bonnach beal-tine, ou seja, o bolo de Beltane. Era dividido em vários pedaços e distribuído aos presentes solenemente. A pessoa a quem cabia um determinado pedaço era chamada de cailleach beal-tine, isto é, o carline de Beltane, termo muito pejorativo. Quando se descobria a quem coubera tal pedaço, o resto dos presentes agarrava essa pessoa e fingia que ia atirá-la à fogueira, mas outros se opunham, e ela era salva. Em alguns lugares essa pessoa era deitada no chão, como se fossem esquartejá-la. Depois, atiravam-lhe cascas de ovos e continuavam a chamá-la pelo odioso epíteto durante todo o ano. E, enquanto a recordação da festa ainda perdurava na memória das pessoas, fingiam falar do cailleach beal-tine como se estivesse morto”. (…)
Entre os antepassados pagãos dos povos europeus, a festa dos fogos mais generalizada e popular do ano era a grande comemoração da véspera do Solstício de Verão, ou do dia do Solstício, à qual correspondia a festa dos fogos do Solstício de Inverno. Entre os povos celtas de Land’s End, na Cornualha, por outro lado, as principais festas dos fogos eram as do 1º de Maio ou de Beltane, e do Hallowe’en. Essas duas datas marcam a época em que os pastores levam o gado para pastar e em que com a aproximação do inverno, levam-no novamente de volta para os currais. A divisão celta do ano em duas metades marcadas pelo início de maio e pelo início de novembro data assim de uma época na qual os celtas eram principalmente um povo pastoril que, para sua subsistência, dependia de seus rebanhos, e na qual, por essa razão, as grandes épocas do ano eram os dias nos quais o gado partia de suas fazendas no princípio do verão e aqueles em que para elas voltava novamente no princípio do inverno. (…)
Das duas festas, o Hallowe’en talvez fosse a mais importante, já que os celtas parecem ter datado o início do ano a partir dela, e não a partir da festa de Beltane. Na ilha de Man, um dos redutos em que a língua e o folclore celtas mais resistiram ao sítio dos invasores saxões, o 1º de novembro (calendário antigo) era considerado como o dia do Ano-Novo, até épocas recentes. Assim, os mascarados de Man costumavam sair às ruas na festa de Hallowe’en cantando, na linguagem de Man, uma espécie de canção de Hogmanay (Ano-Novo) que começava assim: “Hoje é a noite do Ano-Novo, Hogunnaa!”. Um dos informantes de Sir John Rhys, um velho de setenta anos da ilha de Man, “havia sido empregado de fazenda desde os dezesseis anos até os vinte e seis, com o mesmo patrão, perto de Regaby, na paróquia de Andreas, e lembra-se de que seu patrão e um vizinho próximo discutiam a expressão dia do Ano-Novo aplicada ao 1º de novembro e explicaram aos jovens que sempre fora assim antigamente. De fato, parecia-lhe bastante natural que assim fosse, já que todos os contratos de ocupação de terra terminam naquela época e todos os empregados começam o seu serviço também nessa época”.
Nas regiões celtas, o Hallowe’en parece ter sido a grande época do ano para se prever o futuro. Todos os tipos de adivinhações eram postos em prática naquela noite. Dathi, rei da Irlanda no século V, estando no monte dos Druidas (Cnoc-nan-druad), no condado de Sligo, durante a festa de Hallowe’en, mandou que seu druida lhe previsse o futuro, entre aquele dia e o próximo dia de Hallowe’en. O druida passou a noite no alto de uma colina e, na manhã seguinte, fez uma previsão ao rei que se tornou realidade. No País de Gales a festa do Hallowe’en era a mais estranha de todas as Teir Nos Ysbrydion, ou Três Noites dos Espíritos, quando o vento, “soprando sobre os pés dos cadáveres”, levava suspiros às casas dos que deviam morrer naquele ano. Acreditava-se que, se, naquela noite, alguém saísse até uma encruzilhada e escutasse o vento, ficaria sabendo das coisas mais importantes que deveriam acontecer nos próximos doze meses.