Eles eram os Guardiões da Coroa.
Não havia, em todo o reino, cargo mais cobiçado e respeitado.
Quatro homens. Nobres entre nobres. Todos honrados, altruístas, orgulhosos.
Todos, menos um.
Não havia, em todo o reino, cargo mais árduo e extenuante em suas obrigações.
Quatro homens. Guerreiros entre guerreiros. Todos fortes, imponentes, destemidos.
Todos, menos um.
Não havia, em todo o reino, cargo mais perigoso.
Quatro homens.Todos mortos.
Todos, menos um.
“Irônico”, pensou Dante. Ao contrário de suas suspeitas, a verdadeira face da conspiração não estava próxima ao trono.
Era o próprio trono.
“Contente-se com a glória de um fim misericordioso, diante de sua rainha”. O olhar de Lady Alice era frio, inflexível, assim como sua voz. Dante conhecia bem aquela expressão de absoluta ausência de emoção, talhada sob séculos de tradicional e rígida educação nos rostos de pedra da família real. Lady Alice jamais demonstrava o que sentia – fosse organizando um baile, movendo as intrincadas engrenagens da política entre os feudos durante a longa guerra pela independência ou, como agora, apontando uma besta carregada para seu ex-cavaleiro.
No entanto, não era difícil para Dante vislumbrar, por trás da máscara impassível, o quanto Lady Alice estava furiosa.
Tudo teria saído perfeito – se Dante tivesse caído, como seu três companheiros, ao tentar proteger o rei da emboscada que sua própria consorte havia arquitetado para dar cabo, a um só tempo, de um regente pífio e de um marido que lhe provocava asco. Os quatro fiéis guardiões teriam morrido como heróis, sem que a trama jamais fosse descoberta. E, antes mesmo de encerrado o luto oficial, a resignada rainha poria um fim à revolução, entregando de bom grado a liberdade e a vergonha de seu povo em troca da cama e dos cofres do Imperador.
Mas Dante sobrevivera. Apenas para atrasar-lhe os planos – ainda que provisoriamente. Ele sempre havia sido insolente.
“Uma morte rápida e pouco dolorosa é mais do que você merece, por sua estupidez”, declarou Lady Alice, apontando a arma com ambas as mãos, ousando demonstrar um breve resquício de descontrole. “Vire-se de costas!”
“Então, minha rainha não tem coragem de me olhar nos olhos, ao me matar” – grunhiu Dante, virando-se devagar. “Sinto-me genuinamente honrado”
“Um pouco tarde para que encontres a honra que nunca tiveste.”
“Declaração curiosa, partindo de uma adúltera e assassina…”
“CALE-SE!”. A haste metálica estalou levemente nas mãos da rainha, denunciando aos ouvidos de Dante que o mecanismo encontrava-se pronto para disparar. “Caminhe até a janela… devagar”.
“Estava pensando”, interrompeu o cavaleiro. “Em que momento você resolveu trair a seu povo? Antes ou depois de trair ao seu rei?”
“Estamos numa guerra, Dante”. Ele poderia jurar que a voz da rainha subitamente tornara-se menos ríspida, até mesmo relaxada. Sim, ela sabia exatamente o que estava fazendo. Não, ela não agia sob ameaça do Imperador. Não sentia nenhum medo. Nenhum remorso. “Eu avisei que você não poderia confiar em ninguém… um conselho que não excluía nem mesmo a mim”.
Dante deu mais um passo, ainda de costas para Lady Alice, posicionando os pés com precisão discreta o bastante para que a traidora não percebesse seu próximo movimento.
“Se eu confiasse em você”; disse ele, o sorriso malicioso convenientemente oculto; “Teria lhe dito antes que sempre carrego duas lâminas…”
A adaga longa e pontiaguda cruzou o ar antes que Lady Alice pudesse esboçar qualquer reação, senão de surpresa e dor, antes de tombar. Dante era o mais franzino dos espadachins. Mas nunca errava.
“Três de Espadas”, disse ele. E então retirou do bolso uma carta de baralho enquanto caminhava, calmamente, até o corpo inerte daquela a quem havia jurado proteger com sua própria vida. “Coração partido, caos e traição. Foi o que esta carta me disse quando questionei sobre seu encontro com os Cavaleiros, esta manhã. Mas eu já sabia. Por isso, Três de Espadas. E não Quatro. A minha não estava entre elas…
Dante deixou cair a carta sobre a mancha de sangue que agora encharcava o tapete diante de Lady Alice, perdendo-se no úmido veludo púrpura. Tomou de volta seu sabre e sua adaga, antes de deixar o castelo pela última vez. O povo do reino, que agora estava livre para lutar pelas próprias armas, jamais entenderia. Talvez fosse melhor assim.
Quatro homens. Nobres entre nobres.
Todos honrados.
Todos fortes.
Todos mortos.
Todos, menos um.
Texto por: Alexandre Satana – O Dragão de Latão


