
Saudações, aventureiros! Lembram quando suas mamães mandaram vocês criarem vergonha na cara e irem cursar Direito, que é uma faculdade decente? Pois é: hoje nós vamos descobrir que elas tinham lá suas razões!
No “Latão Responde” de hoje, vamos descobrir que ser nerd já foi mais fácil: agora, para jogar RPG, um anel de advogado pode ser o item mágico mais valioso do planeta. Duvidam? Então, saquem só o drama do nosso amigo Cão Babão, que mandou meia tonelada de perguntas sobre “a tal Open Gaming License” do Sistema D20 (e provavelmente vai sair daqui mais confuso do que quando entrou). É isso aí, pessoal! A Justiça é cega… mas isso não torna as coisas mais fáceis! Ela poderia ser surda, muda e paralítica, que ainda seria um desafio de Nível Épico…
Cartinha do Sr. Cão Babão:
Olá, Latão!
Gostaria de saber váááárias coisas a respeito do sistema D20:
É necessário pagar para se publicar um trabalho em que irei ganhar dinheiro (um livro básico) baseado no sistema D20?
Excluindo-se os custos normais (e geralmente exorbitantes) necessários para se publicar qualquer coisa no nosso país, caro Cão, a resposta é “não” – no sentido de que você não terá que pagar direitos autorais para a Wizards of the Coast, que inventou o sisteminha do qual você pretende (ab)usar. O que você precisa fazer, antes de mais nada, é ir nesse link aqui ( http://www.wizards.com/default.asp?x=d20/welcome) e ter a heróica paciência de ler, na coluna direita, todas as “Official Licenses” que definem “pequenos termos” necessários à liberação das regras para você usar como der na telha. Separe um dia de ócio, arme-se de muita dedicação e um dicionário jurídico inglês-português: as tais regras estabelecem condições para liberação dos direitos autorais em termos beeeeem detalhadinhos, que não interessariam a ninguém exceto um advogado recém-formado e louco pra mostrar serviço. A boa notícia é que, embora chatas, as regras não são tão complicadas assim. Depois de digerir o calhau, você volta lá no mesmo link que eu passei acima e clica na parte que interessa: ” For Publishers “. Lá você encontra uma ficha de cadastro pequenininha, na qual se compromete a respeitar direitinho os termos da Open Game License do sistema D20. Daí, você manda essa ficha pro e-mail da Wizards of The Coast e espera a resposta deles autorizando você a ser o novo milionário da indústria do entretenimento.
Eu preciso fazer alguma coisa compatível com o D&D para usar o sistema D20?
Nada disso! Caso você opte por utilizar apenas a parte “mecânica” das regras do sistema D20, pouco importa se seu jogo será sobre Fantasia Medieval ou sobre Baleias Albinas Psiônicas Superinteligentes Que Pretendem Estabelecer Um Império No Lado Escuro Da Lua Utilizando A Energia Das Ondas Cerebrais De Escoteiros Mirins Chineses. Se a Wizards of the Coast liberou, tá liberado (um bom exemplo são os Star Wars D20 e Call of Chtulhu D20 que andaram fazendo sucesso por aí).
Devo salientar, no entanto, que o jogo das Baleias citado no exemplo já é meu: nem pense em copiar sem me pagar royalties. Hmpf.
É necessário ter um dos livros básicos do D&D para manjar o sistema D20?
Ter os livros ajuda bastante, mas o mundo mágico da internet está aí pra facilitar a sua vida: há trocentos milhões de sites, mailing lists e fóruns, oficiais ou não (como este aqui, ó: http://boards1.wizards.com/forumdisplay.php?s=&forumid=259) voltados especificamente para designers que pretendem desenvolver jogos baseados no sistema D20, esmiuçando as regras de uma por uma.
Existe um livro, um site, colégio só para explicar o sistema D20?
Eu aconselharia a ir ao site oficial da Wizards of The Coast (aquele mesmo que eu citei lá em cima), por dois motivos: 1) – É o site oficial, ora bolas; 2) – Não tenho conhecimento de sites em português que sejam suficientemente complexos ou que não façam “releituras” das regras, que podem acabar te confundindo mais ainda, e 3) – Você fica por dentro das atualizações em primeira mão, caso hajam. Eu disse que eram só dois motivos? Dane-se, eu sou um cara expansivo.
A ficha produzida pelo sistema D20 vai acabar ficando muito parecida com aquela do D&D, que é minuciosa demais para o meu gosto?
Aí depende de quantas regras do sistema D20 você vai sugar para o “seu” jogo, que tipo de cenário você vai querer montar e quão eficiente será o designer que você vai contratar para criar o layout da sua ficha. Ela pode ter apenas meia dúzia de números riscados em papel higiênico ou virar a nova edição de “Guerra e Paz” – ilustrada.
Pessoalmente, eu gosto de detalhes. E figurinhas. E aquelas coisinhas redondas com números dentro. E linhas retas. E tons pastel. E descrições de perícias. E ilustrações de monstros em 3-D. E… Ah, e daí que minha ficha de personagem é maior que o Livro do Jogador?
Tenho de botar o selo da TSR ou da Wizards Of The Coast para usar o sistema D20?
Ah, você tem que colocar a logo do D20 System, sim. E nas dimensões e proporções e cores corretas – rola toda uma frescura com isso. Senão eles ficam muuuuuito chateadinhos. E os advogados deles ficam muuuuuuito alegrezinhos.
Tenho de vender o meu trabalho para o pessoal supracitado se usar o sistema D20?
Não. Mas aí vem a armadilha da Open Gaming License: como as regras do “jogo aberto” são as mesmas para todo mundo, tudo o que você publicar dentro dos termos da mesma passam a ser considerados… Open Game, ora essa. E nada impede que outro designer de jogos ou que os próprios caras da Wizards of The Coast, caso tenha achado sua idéia muito bacana, utilizem o SEU material em produtos que ELES venham a criar – sem te pagar um centavo. Adorável, não?
Posso mexer à vontade no sistema D20?
Não. Dentro da Open Gaming License, você pode escolher quais regras utilizar dentre as que já existem. Não gostou do sistema de classes, raças, magia ou hit points, por exemplo? Beleza, simplesmente descarte essas regras no seu jogo. Para modificar ou acrescentar suas próprias regras, bem como incluir qualquer material original (a maior parte), você vai ter que identificar, claramente, quais partes do trabalho são “abertas” (utilizando as regras do D20) e quais partes são “fechadas” (criação original sua, que você não quer ver copiada de jeito nenhum). Vale esclarecer que qualquer coisa que você escrever e não deixar BEM CLARO que é CRIAÇÃO SUA, inclusive protegida por direitos autorais (e aí cabe a você desenbolsar uma grana para registrar tais direitos de acordo com a legislação brasileira), significa que todo o conteúdo está automaticamente “liberado”. Da mesma forma, se você pegar qualquer regra do sistema D20 e indicar como “conteúdo fechado” – ou seja, de criação sua – os caras vão cair em cima de você feito Dragão com fome. Sugiro não arriscar..
Já existe qualquer outra coisa baseada no sistema D20 além do D&D?
Ih, uma pá de coisas. De jogos “oficiais” como o Star Wars e Cthulhu D20, que eu citei lá em cima, a sarros despretensiosos como Munchkin, ou até jogos “independentes” que você só encontra pela internet – como adaptações do Mundo das Trevas para o D20 (o que não deixou o povo da White Wolf lá muito satisfeito). A maioria das empresas desenvolvedoras de jogos, principalmente as pequenas, fazem uso de sites como o RPG Now ( http://www.rpgnow.com/) para vender suas invenções baseadas no D20 direto ao consumidor, no formato PDF – evitando custos de editoração e distribuição, o que torna as coisas beeeem mais baratas. Dá uma olhada neste link, por exemplo ( http://www.rpgnow.com/default.php?cPath=_1) pra você ver algumas idéias criativas e mais um monte de aberrações.
Devo ter me esqueci de alguma coisa por perguntar, mas aí eu mando outra coisa para vocês se entreter, dragão!
Pode deixar. Vou aguardar com muito carinho, amor e plenitude. Mas acho que dá pra resumir tudo deizendo o seguinte: a Wizards of The Coast criou e liberou as regras do D20 para qualquer um usar – mas continua sendo a “dona” dessas regras. É mais ou menos como emprestar a bola do seu irmão mais velho: se ele estiver de bom humor, você pode jogar com ela à vontade – mas se você furar a desgraçada da bola, ele vai te estraçalhar de pancada e pedir pra você comprar outra pra ele – mais cara que a original. Sabendo jogar direitinho, dá pra se divertir numa boa.
Até a próxima, aventureiros!
Dragão de Latão
Texto por: Alexandre Santana
