Os Contos Secretos de Ivan Maldovan - Um espírito em uma pedra - Parte 3: A Primeira vítima
Há dias tenho escutado essas mesmas palavras em meus sonhos… um único sonho que se repete todas as noites…
Uma imagem sem foco que desenha a silhueta de uma mulher virada de costas para mim que tristemente diz tais palavras e ao terminá-las ela volta-se para mim e antes que possa ver seu rosto… eu acordo!
Estava sentado às margens do lago da verdade, quando senti a presença de meu pai…
- Desde o dia que chegou, há quinze anos, você não tem dormido em outro lugar senão às margens desse lago, meu filho… Você sabe que este lago é perigoso, até mesmo para você…
- O que pode haver de tão perigoso na verdade? Este lago apenas mostra a verdade… a verdade que queremos dizer… a verdade que queremos esconder… a verdade que nem sabemos existir…
- Que essa seja uma decisão sua, então! Mas não foi por isso que vim aqui… Ivan… está na hora de você conhecer sua primeira vítima!
Você precisa voltar para Fenice, lá… procure por Isabelle… mas não se preocupe em procurá-la! Entenda filho, as pessoas fúteis fazem muito barulho para esconder o vazio. Agora vá… você saberá o que fazer…
Assim, parti para Fenice, e a cada passo que dava, minha aparência mudava… minha pele tornava-se mais alva, meus cabelos tornavam-se loiros avermelhados, e uma armadura prateada formava-se…
A ilusão estava pronta e faltava apenas um detalhe…
Quando cheguei nos limites da floresta, um belo cavalo me aguardava, eu sabia que aquele cavalo também se modificara, eu já o vi antes, ele sempre estava correndo pela floresta e selvagem eram seus olhos…
Mas agora ele estava calmo, talvez precisasse de um propósito e ao pensar nisso ele olhou para mim e inclinou-se fazendo uma reverência, e entendi que ele se oferecera para me ajudar. E então deixamos a Floresta dos Desesperados…
Ao chegarmos em Fenice, pude ouvir aos longes gritos e gargalhadas que vinham do centro da cidade. Seguindo o conselho de meu pai, fui guiado pelos os gritos…
Fenice não havia mudado muito, mas agora havia mais casas e alguns membros da nobreza haviam fixado residência lá… Ainda na Floresta dos Desesperados soube pelos corvos que alguns membros da nobreza eram enviados para vilas menos desenvolvidas, algumas vezes para estabelecer a ordem, outras vezes para cobrar impostos, em ambos os casos sempre levando uma pequena leva de cavaleiros formando uma pequena milícia consigo.
Mas havia também nobres que eram enviados por representar certa “ameaça” para a nobreza e ao próprio rei, e esses eram enviados sem milícia alguma. E percebi que a última situação era a que mais representava o estado da nobreza que se instalara em Fenice…
Ao chegar ao centro da cidade, vi que aquela praça em frente à pequena capela ainda permanecia a mesma e naquela época nem poderia imaginar que aquela praça seria palco para o julgamento e condenação de muitas bruxas alguns anos depois…
Mas agora três jovens, filhos de nobres, “brincavam” com uma camponesa de vestimenta simples e suja… Eles a cercaram e a puxavam e a beijavam a força e logo empurravam para o colega ao lado que repetia os gestos e gargalhavam enquanto a camponesa chorava formando uma cena deplorável.
Penso como é incrível que algumas pessoas guiadas pelo modismo ou inspirados pela vontade de um líder são capazes de fazer tanto mal a outros… Pela simples justificativa de não possuírem vontade própria. Inocentes seriam por desproverem de vontade própria? Não, é a resposta que tenho. Porque sempre há a escolha…
Mas entre a inocência e a culpa, eu culpo o líder, pois sem ele, não haveria motivação e nem um guia para esses malditos. E nessa situação a líder era uma jovem nobre que próximo daquela cena ria de tudo! E antes que pudesse interferir… Ela disse:
- chega! Parem! Bastian! Alphonse! François! Agora estou entediada!
A ordem foi obedecida prontamente, eles jogaram a camponesa num lamaçal e retornaram para próximo da jovem nobre.
- O que houve Isabelle? Agora que estávamos começando a nos divertir!
- É verdade! disse o outro, A roupa dela já estava praticamente se desfazendo!
- Sim! Agora que ia começar a verdadeira diversão! Concluiu o terceiro.
Olhando com desprezo para a camponesa, ela continuou…
- Eu já cansei dela, todas essas camponesas ridículas são assim, frágeis e só sabem chorar! Não vejo onde estaria a diversão nisso tudo! E outra…
Nesse momento, ela olha para mim e diz:
- não estamos sozinhos… Houve quem tivesse coragem de apreciar tudo isso… mas por não ter reação alguma, parece não se importar…
- e não me importo! Disse. Apenas concordo com vossas palavras… há algo mais divertido que estuprar miseráveis camponesas! Gostaria de saber o que seria?
Ao dizer isso, Isabelle mostra entusiasmo, e caminha em minha direção. Seus criados apenas olham sem saber como agir…
- Isabelle… aonde você vai? Um deles pergunta.
- vão embora! Estou farta de vocês! Finalmente encontrei alguém que mostra ser digno de minha presença!
Inclinei minha cabeça gentilmente agradecendo ao elogio, e desci de minha montaria. Ela se aproximou, e ajoelhei diante dela beijando sua mão.
- De onde vens, nobre cavaleiro? Daqui é que não é, pois duvido que aqui vivas sem que notado o tivesse!
- falas com demasiada audácia para uma moça tão jovem… disse sorrindo.
- talvez devesse pedir desculpas se minha curiosidade não fosse tão impetuosa… ela disse sorrindo também.
- mas quanto ao que me perguntas, venho de longe… de um lugar que acredito que desconheças…
- Hum, que mistério! pareces ser bem misterioso… gostaria de descobrir até onde vão tantos mistérios…
- se assim desejas, então a levarei comigo…
- E qual seria seu nome, nobre cavaleiro? Preciso saber o nome do ser que irá me seqüestrar… ela disse sorrindo.
- Me chamo Ivan, milady… e apenas meu primeiro nome será informação suficiente.
- Ivan? Engraçado você se chamar Ivan… ela fala enquanto o sorriso desaparece de seu rosto.
- E porque haveria graça? Demonstro leve preocupação.
- Por nada… por favor… me leve daqui…
Nunca saberei se foi a ilusão que a encantou, ou se foi o tédio pela mesmice que trazia o desespero que ela vivia dia após dia que a fez vir tão prontamente, sem medos ou incertezas… o fato é que ela me olhava com familiaridade como se já nos conhecêssemos e senti que nossos destinos estavam estranhamente entrelaçados…
Subimos em meu cavalo e partimos… mas ao sairmos de Fenice, percebi que ela não sorria mais…
- O que houve, milady?
- Nada, milord… é apenas o alívio que sinto por não precisar fingir mais…
- se é o que sentes… então sei onde devo levá-la… sei onde fingimento é algo desnecessário…
Ela me abraçou forte e voltou a sorrir enquanto íamos para a Floresta dos Desesperados…
(continua…)
Texto por: Mario Nakamura
como eu dizia nos auges de meus 15 anos…
“figuras pequenas SUXS!
Comentário de espiritodapedra — 13, 04, 2008 @ 10:26 am