O RPG leva ao crime? (A resposta é não, para àqueles que não tiverem a paciência de ler)
Autor: Jônatas D.P. Leite
O RPG leva ao crime”. Este é o título de um artigo escrito por uma mãe, cuja filha foi covardemente assassinada. Tanto essa mãe, quanto boa parte da mídia, atribuiram ao RPG responsabilidade por essa tragédia. Pude ler esse artigo, graças ao link fornecido por Francisco Martellini, e senti a necessidade de comentá-lo.
Antes de mais nada, como psicólogo, não posso condcondenar esta mãe de forma alguma. Perder um filho de forma brutal deixa marcas, tristezas e, muitas vezes, um luto mal elaborado. Fico compadecido por sua dor, e espero sinceramente para ela e sua família a superação deste trauma, bem como uma punição severa para o criminoso, seja ele jogador de rpg ou não.
Não acho justo exigir desta mãe amor pelo RPG, nem a compreensão de que para maioria dos praticantes é por toda vida apenas um passa-tempo, inofensivo. A marca para ela é a imagem de um jogo perverso cuja prática resultou na perda de alguém amado.
Ela cita algumas pessoas famosas e de prestígio, que corroboram com sua tese. Sem dúvida, trata-se de uma mulher inteligente e articulada. Contudo, discordo respeitosamente de sua posição quanto ao RPG.
Seria hipocrisia minha dizer que, praticar o RPG, não me influencia na defesa do jogo. Porém, minhas postagens são movidas pelo conhecimento técnico da mente humana.
Trabalhar no Serviço Público, recebendo pessoas com todas as vulnerabilidades imagináveis (sociais, psíquicas e físicas) tornou-me alguém acostumado com a dor humana. Correndo o risco de parecer arrogante, confio muito mais no meu julgamento sobre comportamento humano, principalmente quando ligado ao RPG, do que em alguns especialistas gringos.
Primeiro, porque vivi a realidade, e não o aconchego de meu lar e bibliotecas, olhando a teoria sem prática, como muitos professores de universidades americanas fazem. Segundo, a psicologia se molda de acordo com a cultura. Devemos lembrar que nos Estados Unidos ocorrem massacres nas escolas: jovens armados entram atirando, matam amigos, professores e depois se suicidam; um fenômeno que não ocorre aqui. Usar uma teoria americana, sem adaptá-la para a realidade brasileira é um erro, gera falsas verdades.
Outro ponto é a verdade científica: existem pessoas com propensão a um comportamento criminoso. Os psicopatas (postarei em outra oportunidade) são bons exemplos. Pessoas perversas se valerão de qualquer situação para justificar seus atos malignos. “O livro de RPG ensina a matar”, “O filme me deu idéias para o crime”, “Se eu tivesse sido mais amado, não seria tão revoltado”; “Acho que ele estava rindo de mim, por isso o esfaqueei”; “Deus ordenou na minha mente para que eu o matasse”, “Eu a matei porque ela me traia”… e por ai vai.
Por mais que tentássemos, não poderíamos criar a bolha perfeita, um mundo censurando toda forma de expressão e arte que pode “hipoteticamente incentivar a violência”. Todo ser humano tem agressividade e pode direcioná-la de forma danosa ao próximo. O indivíduo, a rigor, sempre é o responsável
Há de se lembrar que durante todo Antigo Testamento, os escolhidos de Deus (Sansão, Davi, Salomão) matavam seus inimigos com permissão do Pai. Partindo deste princípio não deveria mais haver bíblia. Também deveríamos extingüir o futebol, artes marciais, gibis, novelas, teatro, livros, pois todos podem dar exemplos de violência, mesmo que indiretamente.
Quem lê minhas postagens notará que por vezes sou repetitivo. Faço isso de forma consciente, pois existem pontos fundamentais que gosto de lembrar. Quando alguém diz “Eu vi um desenho no livro de RPG que me estimulou a matar” ou “Ao ver as regras de combate precisei espancar meu vizinho”, existem duas explicações possíveis:
1ª- Trata-se de um psicótico, deficiente mental, neurótico durante um processo de estreitamento do campo de consciência; ou um quadro de alteração do humor (depressão ou mania) com sintomas psicóticos. Claro, estas são apenas algumas possibilidades, mas quero me referir a todo grupo de enfermidade psíquica que priva o sujeito de sua razão. Pessoas assim, não ficam doentes do dia para noite. Para chegar ao ponto de matar, o sujeito já vem mudando de comportamento há algum tempo, e os sintomas foram ignorados por familiares e conhecidos. Certamente, não vinha fazendo tratamento médico, psicológico e uso correto da medicação. Essa combinação gera tragédias.
2ª O sujeito é um psicopata, perverso ou possui um transtorno de personalidade. Este sujeito pode ainda ser um serial killer, um estuprador em série; enfim, neste segundo grupo refiro-me àqueles que não são doentes, contudo são monstruosidades psíquicas. Geralmente tem boa aparência, são dissimulados, manipuladores e mentirosos competentes. Predadores sociais, não se importam com o próximo. Sádicos, que se alimentam da dor alheia. Cerca de 3% da população mundial tem essas características, e são a maioria dos responsáveis pelos crimes mais hediondos.
Por este motivo, por entender a mente humana é que digo: não apenas o RPG, nenhuma forma de arte, expressão ou música pode ser responsabilizado pela morte de pessoas.
Seres humanos, doentes ou não, é que optam por matar.
Forte abraço a todos
Jônatas D. P. Leite – Psicólogo – CRP 06/95224
Você é quinto psicólogo que fala desse aspecto, com RPG e violência, que quem comete crimes já tem o problema e o ‘gatilho’ será disparado por em algum momento, seja com RPG, filme, desenho, propaganda, etc.
Farei um texto resumido sobre isso para colocar em uma publicação que estou planejando (um RPG). Se você tiver uma eu gostaria de saber se posso usar. Algo de dois parágrafos. Parece mínimo, mas é um resumo para os leigos ficarem traquilos.
Gilson
realmente muito bom,
gostei do blog e do post sobre psicologia!
dá uma olhada no meu blog http://psicologiaparatodos.16mb.com
se quiser que eu coloque algum post seu lá, é só me avisar, que coloco e ponho referencias.
Abraços