Suserania’s Weblog

2, 05, 2008

AS CRÔNICAS DE FABLE

AS CRÔNICAS DE FABLE

– Relatos de Ivan Maldovan –

Parte 1: Lágrimas em correntes de ferro

Tentava recordar tudo aquilo que havíamos enfrentado desde quando recebemos a missão de ir para Everhate para recolher informações sobre a Horda que parecia mais poderosa a cada dia. Dentre orcs furiosos, um verme púrpura e um esqueleto enorme, tentava consolar-me com os itens encontrados naquele covil colossal: para mim, uma espada longa com a habilidade de decepar a cabeça de meus oponentes, um manto que me permitia aumentar minhas resistências físicas e mentais, e um cetro com a habilidade de realizar 3 desejos menores.

Mas antes que pudesse imaginar suas possíveis utilizações, meu raciocínio foi interrompido por um grito…era um grito familiar, era o grito de Dante…

Um temor me tomava… nunca ouvira Dante gritar daquele jeito… eu sempre o via como um bon-vivant… um ser de extrema alegria e vontade de viver… e pensar nisso, minhas preocupações aumentaram…

Corri em direção ao meu amigo, junto com o guerreiro Albafica… no caminho, Lockheart, o mago auxiliava Silverfire, a Ladina… Lockheart me olhou e percebi que Dante tornou-se prioridade naquele momento…

Encontrei Dante de joelhos em frente a uma mulher acorrentada… e a julgar pelas características raciais e a idade aparente, pude deduzir que se tratava da mãe de Dante… Ela parecia ter sofrido as piores torturas mas ainda lutava para preservar a vida em seu fragilizado corpo… De fato ela estava ali há muito tempo e antes que pudesse impedir… Dante, num gesto desesperado, a soltou, acionando um dispositivo que ativava a magia alarme…informando imediatamente o dono daquele covil que seu mais precioso “tesouro” estava sendo levado…

Não haviam escolhas, e não era necessário pensar muito para perceber que o melhor que faríamos era sair dali o mais rápido possível… e assim nos reagrupamos e iniciamos nossa fuga…

Corremos por algum tempo, quando senti que algo estava errado…

Subitamente… O ar mudou…

Uma escuridão sobrenatural nos envolvia…

E o som de passos colossais cresciam mais e mais…

E então clamei: “Que meus olhos vejam além das trevas…Visão no Escuro!” e assim, meus olhos começavam a ver claramente em meio aquela escuridão e olhei para trás…

Para meu desespero, pude ver o Dracolich que ali vivia vindo em nossa direção…

Nesse momento, olhei para Lockheart e vi que ele parou e virou-se para o dragão… desafiando-o…

Olhei para Albafica e ambos sorrimos por pensar a mesma coisa: “Se esse for o momento de nossa morte, que ela seja honrosa… que seja lutando!”

Paramos também, mas o terror que ali imperava era mais forte… e algo precisava ser feito…

Clamei: “Que a coragem aqueça nossos corações neste momento de necessidade… Heroísmo Maior!

E assim, nós nos erguemos e encaramos nosso algoz de frente…

Mas surpresos, vimos Lockheart conversar com o dracolich como mestre e discípulo… entretanto não era uma conversa amigável… e receávamos o que poderia acontecer…

Até que o dracolich voltou sua atenção para nós…

ele disse: “sei o que vocês anseiam… e tenho uma proposta!”

Perguntamos qual seria a proposta…

E ele disse: “Sobrevivam!”

E assim, um portal dimencional surgiu e fomos sugados para o desconhecido.

(Continua…)

13, 04, 2008

One-Shot: Gham

Arquivado em: Espiríto da Pedra — espiritodapedra @ 9:49 am
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One-shot: Gham

Gham abriu os olhos que ainda ardiam relutantemente. Seu corpo cansado se recusava, mas ela levantou mesmo assim. Suas insistências…Suas esperanças…
Mesmo sem propósito, existiam e queimavam dentro de seu corpo.
Corpo que agora estava mais leve de uma forma que ela não conseguia entender…

Pensamentos… algo que ela quase havia esquecido, agora retornavam…
Lembrando-a que sua mente agora estava ativa…
Questionou inicialmente quanto tempo ela havia dormido…
- por exatos mil anos tens dormido, minha querida – uma voz feminina e potente quebra sua linha de pensamento.
- e sim, a “nossa” gravidade é diferente da que você está acostumada. Sente-se, levantar-se só a deixará mais confusa. – ela continuou.

Gham olhou em direção a voz que escutava e viu uma mulher, ela aparentava ter 40 anos e seus cabelos eram loiros e sua pele era clara e usava vestes cerimoniais que por mais que Gham nunca tivesse visto algo assim, um sentimento novo trazia familiaridade a tudo aquilo.

Ela lembrou daquelas modelos das revistas que lia antes. E lembrou também de sua vida… seus amigos, sua família… e de Hiro. E logo um desespero a tomou.
- Acalme-se! Disse a mulher. Você precisa esquecer seu passado. Ele só trará uma dor desnecessária. Seu mundo morreu… Seus pais seguiram suas vidas, seus amigos cresceram, tiveram filhos, netos… assim como Hiro que casou e formou uma linda família… ele envelheceu e por fim morreu.

Mesmo assim, Gham não conseguia se controlar e chorava compulsivamente.

Está tudo em nossos arquivos, nós acompanhamos seu mundo há milhares de anos. Mas o importante é que Você foi nossa escolhida. Você possui o espírito mais evoluído da sua época. Não há ganância, egoísmo ou qualquer outro mal em seu ser. Você foi o único ser realmente puro que existiu nos últimos três mil anos depois Dele.

- Dele? – Gham questionou.
- Sim! Ou você esqueceu sua religião? Não estou aqui para contar histórias, mas sim para lembrá-la porque está aqui!
Você foi escolhida para dar VIDA ao seu planeta.

Nesse instante, Gham parou de chorar.

- Venha comigo… há algo que quero lhe mostrar! – E assim as duas saíram do quarto e assim a mulher continuou.
Desde muito antes de sua época seu planeta estava destinado a morrer. E ele ia. Mas devido a tecnologia de seu povo, vocês conseguiram manter a terra viva por mil anos, mas agora, é impossível e não há tecnologia que possa reverter tudo que seu povo fez. E por isso seu povo também está destinado à extinção.
Não sei que sentimentos a tomarão quando lhe propor a escolha a seguir.
Veja! Este é o seu mundo como você se lembra… o planeta azul, como preferimos chamar. Mas infelizmente ele não é mais assim… hoje ele está cinza e somente o deserto existe, e as cidades esquecidas em suas cúpulas de vidro. Mas se você quiser… somente você é capaz de torná-la azul novamente…

Somente você pode dar vida a seu planeta.
Mas isso custará a SUA vida. Você morrerá…por seu mundo e fará parte dele.
Você será a alma do seu mundo! E enquanto você tiver forças a natureza que há nele irá se manter.
Essa é uma escolha sua. Se você aceitar seu planeta e seu povo irão prosperar.
Mas se recusar, seu mundo e tudo que você conhece irá sumir.

- Pelo seu olhar você já sabe minha resposta! – Gham disse sem rodeios.
- Sim! Senão não a teríamos escolhidos.
- Então não preciso responder.
- Se você prefere assim.
Mas lhe aviso que devido a sua escolha decidimos lhe dar um presente… e não há nada mais precioso que conhecimento. Qualquer coisa que quiser, qualquer informação lhe será concedida… mas apenas uma informação.

Gham hesitou por um tempo, ela queria saber sobre aquele povo, quem eles eram e porque se preocupavam tanto com a Terra e os humanos, mas ela sabia que saber aquilo não fará diferença e mesmo que haja maldade neles ela não poderia impedi-los. Mas mesmo assim só uma coisa lhe interessada de verdade.

- Quero que me contes como Hiro viveu.
- Seu desejo é uma ordem! – a mulher disse.

Nós a trouxemos para cá no dia que ele ia se declarar para você, e graças a essa atitude você manteve sua pureza. Deixamos um bilhete como se tivesse sido escrito por você se despedindo de todos. Fizemos com que acreditassem que você fugira de casa por não querer mais a presença deles. E Hiro ficou muito triste ao saber da notícia.

- Meu hiro… - Gham assim suspirou.

Ele se afundou em um mundo que nem mesmo ele conhecia. Mas ele foi salvo, por uma garota. Eles se casaram e tiveram dois filhos… mas algo o impedia de ser feliz… o amor que ele mantinha por você o seguiu pelo resto de seus dias.
E não houve um dia em que ele não pensasse em você e não chorasse por dentro.
Ele viveu e morreu sem ter grandes desejos ou ambições… a vida dele perdeu sentido sem você, e…

- Pare! Já tenho informações suficientes..
- Tem certeza?
- Sim, e… já… estou pronta!

27, 03, 2008

Os Contos Secretos de Ivan Maldovan - Um espírito em uma pedra - Parte 3: A Primeira vítima

pedra

”As sebes tem secado… e nenhum pássaro canta…”

Há dias tenho escutado essas mesmas palavras em meus sonhos… um único sonho que se repete todas as noites…
Uma imagem sem foco que desenha a silhueta de uma mulher virada de costas para mim que tristemente diz tais palavras e ao terminá-las ela volta-se para mim e antes que possa ver seu rosto… eu acordo!

Estava sentado às margens do lago da verdade, quando senti a presença de meu pai…
- Desde o dia que chegou, há quinze anos, você não tem dormido em outro lugar senão às margens desse lago, meu filho… Você sabe que este lago é perigoso, até mesmo para você…
- O que pode haver de tão perigoso na verdade? Este lago apenas mostra a verdade… a verdade que queremos dizer… a verdade que queremos esconder… a verdade que nem sabemos existir…
- Que essa seja uma decisão sua, então! Mas não foi por isso que vim aqui… Ivan… está na hora de você conhecer sua primeira vítima!
Você precisa voltar para Fenice, lá… procure por Isabelle… mas não se preocupe em procurá-la! Entenda filho, as pessoas fúteis fazem muito barulho para esconder o vazio. Agora vá… você saberá o que fazer…

Assim, parti para Fenice, e a cada passo que dava, minha aparência mudava… minha pele tornava-se mais alva, meus cabelos tornavam-se loiros avermelhados, e uma armadura prateada formava-se…
A ilusão estava pronta e faltava apenas um detalhe…

Quando cheguei nos limites da floresta, um belo cavalo me aguardava, eu sabia que aquele cavalo também se modificara, eu já o vi antes, ele sempre estava correndo pela floresta e selvagem eram seus olhos…

Mas agora ele estava calmo, talvez precisasse de um propósito e ao pensar nisso ele olhou para mim e inclinou-se fazendo uma reverência, e entendi que ele se oferecera para me ajudar. E então deixamos a Floresta dos Desesperados…

Ao chegarmos em Fenice, pude ouvir aos longes gritos e gargalhadas que vinham do centro da cidade. Seguindo o conselho de meu pai, fui guiado pelos os gritos…

Fenice não havia mudado muito, mas agora havia mais casas e alguns membros da nobreza haviam fixado residência lá… Ainda na Floresta dos Desesperados soube pelos corvos que alguns membros da nobreza eram enviados para vilas menos desenvolvidas, algumas vezes para estabelecer a ordem, outras vezes para cobrar impostos, em ambos os casos sempre levando uma pequena leva de cavaleiros formando uma pequena milícia consigo.

Mas havia também nobres que eram enviados por representar certa “ameaça” para a nobreza e ao próprio rei, e esses eram enviados sem milícia alguma. E percebi que a última situação era a que mais representava o estado da nobreza que se instalara em Fenice…

Ao chegar ao centro da cidade, vi que aquela praça em frente à pequena capela ainda permanecia a mesma e naquela época nem poderia imaginar que aquela praça seria palco para o julgamento e condenação de muitas bruxas alguns anos depois…

Mas agora três jovens, filhos de nobres, “brincavam” com uma camponesa de vestimenta simples e suja… Eles a cercaram e a puxavam e a beijavam a força e logo empurravam para o colega ao lado que repetia os gestos e gargalhavam enquanto a camponesa chorava formando uma cena deplorável.

Penso como é incrível que algumas pessoas guiadas pelo modismo ou inspirados pela vontade de um líder são capazes de fazer tanto mal a outros… Pela simples justificativa de não possuírem vontade própria. Inocentes seriam por desproverem de vontade própria? Não, é a resposta que tenho. Porque sempre há a escolha…

Mas entre a inocência e a culpa, eu culpo o líder, pois sem ele, não haveria motivação e nem um guia para esses malditos. E nessa situação a líder era uma jovem nobre que próximo daquela cena ria de tudo! E antes que pudesse interferir… Ela disse:
- chega! Parem! Bastian! Alphonse! François! Agora estou entediada!
A ordem foi obedecida prontamente, eles jogaram a camponesa num lamaçal e retornaram para próximo da jovem nobre.
- O que houve Isabelle? Agora que estávamos começando a nos divertir!
- É verdade! disse o outro, A roupa dela já estava praticamente se desfazendo!
- Sim! Agora que ia começar a verdadeira diversão! Concluiu o terceiro.

Olhando com desprezo para a camponesa, ela continuou…
- Eu já cansei dela, todas essas camponesas ridículas são assim, frágeis e só sabem chorar! Não vejo onde estaria a diversão nisso tudo! E outra…

Nesse momento, ela olha para mim e diz:
- não estamos sozinhos… Houve quem tivesse coragem de apreciar tudo isso… mas por não ter reação alguma, parece não se importar…
- e não me importo! Disse. Apenas concordo com vossas palavras… há algo mais divertido que estuprar miseráveis camponesas! Gostaria de saber o que seria?

Ao dizer isso, Isabelle mostra entusiasmo, e caminha em minha direção. Seus criados apenas olham sem saber como agir…
- Isabelle… aonde você vai? Um deles pergunta.
- vão embora! Estou farta de vocês! Finalmente encontrei alguém que mostra ser digno de minha presença!

Inclinei minha cabeça gentilmente agradecendo ao elogio, e desci de minha montaria. Ela se aproximou, e ajoelhei diante dela beijando sua mão.
- De onde vens, nobre cavaleiro? Daqui é que não é, pois duvido que aqui vivas sem que notado o tivesse!
- falas com demasiada audácia para uma moça tão jovem… disse sorrindo.
- talvez devesse pedir desculpas se minha curiosidade não fosse tão impetuosa… ela disse sorrindo também.
- mas quanto ao que me perguntas, venho de longe… de um lugar que acredito que desconheças…
- Hum, que mistério! pareces ser bem misterioso… gostaria de descobrir até onde vão tantos mistérios…
- se assim desejas, então a levarei comigo…
- E qual seria seu nome, nobre cavaleiro? Preciso saber o nome do ser que irá me seqüestrar… ela disse sorrindo.
- Me chamo Ivan, milady… e apenas meu primeiro nome será informação suficiente.
- Ivan? Engraçado você se chamar Ivan… ela fala enquanto o sorriso desaparece de seu rosto.
- E porque haveria graça? Demonstro leve preocupação.
- Por nada… por favor… me leve daqui…

Nunca saberei se foi a ilusão que a encantou, ou se foi o tédio pela mesmice que trazia o desespero que ela vivia dia após dia que a fez vir tão prontamente, sem medos ou incertezas… o fato é que ela me olhava com familiaridade como se já nos conhecêssemos e senti que nossos destinos estavam estranhamente entrelaçados…

Subimos em meu cavalo e partimos… mas ao sairmos de Fenice, percebi que ela não sorria mais…
- O que houve, milady?
- Nada, milord… é apenas o alívio que sinto por não precisar fingir mais…
- se é o que sentes… então sei onde devo levá-la… sei onde fingimento é algo desnecessário…
Ela me abraçou forte e voltou a sorrir enquanto íamos para a Floresta dos Desesperados…

(continua…)
Texto por: Mario Nakamura

26, 03, 2008

Um espírito em uma pedra - Parte 2: Um acordo selado com sangue

Conto

…Eu estava perdido, perdido em lágrimas de desespero, e naquela floresta as sombras se moviam, e nenhum passaro cantava.

E mesmo a forte sangria, mesmo minha carne dilacerada, nada disso importava agora, e a paz da morte iminente foi trazida por uma leve brisa, como uma despedida deste mundo, mas nada disso me consolava.

Não foi necessário muita espera para que encontrasse meu destino. Porque logo, os sons dos meus gritos agonizantes ecoaram por toda a floresta, cortando o atordoante silêncio e atraindo várias sombras distorcidas entre as árvores…

Assim, pedi para que minha vida fosse ceifada, e meu sofrimento terminado. Não havia esperanças em meu semblante, apenas clamava a morte… e nesse pedido, um lobo apareceu, e torci para que ele atendesse minhas súplicas.

Ele se aproximou lentamente, olhou-me dos pés à cabeça, circundou-me algumas vezes, quando, quase sem forças, estendi minha mão em sua direção. E antes que desmaiasse de dor, pude ouvi-lo dizer:

“E Enfim, deparo-me com Ivan, filho de Heian, e por ele, despeço-me dando as boas-vindas e um longo adeus”.

Acordei… Estava em uma casa, mais parecida com uma cabana, uma cabana vazia e esquecida pelo mundo. E olhando para fora percebi que ainda estava dentro da Floresta dos Desesperados.

Não havia dor, medo, ou angústia… O mundo continuava a girar, e tudo parecia silencioso e fascinante. Agora via o mundo com outros olhos, tudo era muito fantástico, minha visão não se limitava mais à visão humana… Agora, podia ver os espíritos, e as sombras de outrora, agora haviam formas, todos eram seres maculados, amaldiçoados, perdidos e esquecidos pelo mundo, limitados a suas dores e lamentos.

Mas, inesperadamente, a porta se abriu e alguém entra calmamente olhando para mim e comentou:
- Vejo o quanto cresceu e o homem que se tornou, meu filho.
Ainda sem palavras, apenas observava meu pai olhando para mim com ar surpreso. Quando ele continuou:
- Sinto muito em ser direto no motivo que vim aqui, e me perdoe por não me estender em minhas explicações. Mas o tempo é injusto e você é requisitado com urgência… Por isso espero que entenda em breve quando tudo fizer mais sentido…
Filho, eu temia por você, pelo destino que escolhi para meu tão amado filho. Eu sabia que você se apaixonaria e se entregaria a algum amor proibido, você tem o meu sangue, fazeis parte dos últimos apaixonados desta era e sabia que você a levaria ao único lugar que você se sentiria seguro.
Foi por isso que quando você ainda era um garoto, eu te trouxe para Fenice, para que esse fosse o único lugar seguro para você, para que assim, algum dia, você se refugiasse aqui… e a proximidade daquela cidade com esta floresta não foi nenhuma coincidência. A casa dos mil destinos precisava de um guardião, e esta floresta precisava de um algoz, e eu escolhi você.
Felizmente e infelizmente ao mesmo tempo, tudo aconteceu conforme planejado, e você caiu na teia do destino que teci para você.

Surpreso e inconformado tentei argumentar, mas meu pai passava uma tranqüilidade inexplicável e assim ele continuou…
- Você pode me odiar agora pelo que planejei para você, mas somente sendo o algoz desta floresta você terá poder para se vingar. E como o sangue que corre em suas veias eu sei que anseias por vingança! Agora venha… você é esperado…

Ainda confuso com tudo que ouvira, segui meu pai para fora da cabana, e percebi que por fora, não era uma cabana, mas sim uma casa com detalhes impecáveis e precisos, parecia nova e bem diferente do que havia dentro dela e na entrada da casa havia um grande cristal de quartzo transparente entalhado rusticamente e que tinha a minha altura, e logo a porta se fechou, e ao se fechar, meu pai se virou e voltou-se para a casa e parecia retornar àquela mesma porta, quando perguntei:
- O senhor vai voltar a cabana? Como assim? Porque voltaríamos ao mesmo lugar?
Então, ele disse:
- Não vamos para aquela cabana… Vamos para outro lugar… Esta, meu filho, é a casa dos mil destinos, e ela pode nos levar a qualquer lugar, inclusive ao lugar em que é esperado, portanto, fique calmo, tudo será explicado… no tempo certo.
Assim, ele abriu a porta novamente, e entramos…

Ao entrar, tudo estava muito escuro e meu pai não respondia a meus chamados, mas uma força sobrenatural impelia-me a continuar, então segui e ao dar meus primeiros passos, feixes de luzes vindo de várias direções iluminaram o local e me vi em um palácio ancestral e em frente a um altar antigo, com fortes traços de esquecimento. E no centro havia uma esfera que flutuava no ar e brilhava uma incessante luz azul, uma luz que me chamava.

Cheguei próximo do altar, e os lobos apareceram e curvaram-se diante de mim, abrindo espaço para que eu me aproximasse da esfera. Fiquei na frente daquela esfera e a toquei com minhas duas mãos, e pude sentir…o mundo.

Era como sentisse o fluxo da vida passar por mim, como se naquele momento fizesse parte do mundo como as árvores ou as pedras, quando ouvi a voz do meu pai dentro de mim que dizia:
“És agora, Ivan, O algoz desta floresta, um espírito preso a uma pedra…”
Enquanto ele falava, me senti levado para dentro daquele cristal de quartzo que ficava em frente à casa e agora seu telhado era colorido e possuía todas as cores já descobertas. Então, meu pai continuou…

“…Estás condenado assim a vagar por 100 anos para que sua alma seja salva e assim possa descansar, mas até este dia, ceifarás almas… almas maculadas, almas desperdiçadas… Almas sem sentido, almas sem propósito…almas fúteis, almas perdidas em sua própria podridão…

Receberás assim, o poder de coletar essas almas condenadas em seu sábio julgamento. E para isso terás o poder de modificar-se, poderás adquirir a forma que quiseres pelo tempo que for necessário para que você conduza a alma até esta floresta e aqui condene-a!
…Ficarás retido a esta pedra ao lado da casa dos mil destinos até que esta floresta seja ameaçada ou alguma alma seja escolhida, enquanto isso guiarás àqueles que buscam esta casa… muito há para lhe ser ensinado… e seu aprendizado começa agora!”

Quinze anos foram necessários para que aprendesse sobre todos os mistérios daquela floresta, e sobre os segredos da casa dos mil destinos. E após esses intermináveis dias, recebi a visita de meu pai, ele foi até mim e disse: “Filho, é hora de conhecer sua primeira vítima…”.

(continua…)

24, 03, 2008

Os Contos Secretos de Ivan Maldovan

Arquivado em: Espiríto da Pedra — suserania @ 7:51 am
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- Os Contos Secretos de Ivan Maldovan -

- Um espírito em uma pedra -
Parte 1: O início

“Não! Por favor, não me olhe assim… Eu sei como tudo isso irá acabar…
… na verdade, eu sempre soube…”.

Essas sempre serão minhas palavras, para aqueles que perderão suas almas para mim…

… Eu sou um espírito em uma pedra, condenado assim a ceifar almas.

E todo aquele que leva uma vida de luxurias e futilidades, sem honra, encontrará em meus cânticos, seu destino.

Mas antes que seu esquecimento e sua negligência mundana façam com que todas essas palavras percam sua devida importância, permita-me contar como tudo começou…

Me chamo Ivan S. Maldovan e por escolha de meu pai, nasci em uma vila ao sul de Bordeaux chamada Fenice, em 1264, no Reino da Francónia Ocidental, o qual você chamaria França.

O ano era 1274, e eu tinha apenas 10 anos, quando fui levado para Bordeaux, para aprimorar meus estudos. E aos 20, eu já havia lido mais livros e manuscritos do que muitos de minha idade.

Tal fato devia-se a forte influência de meu pai, que desde minhas primeiras lembranças, insistia em contar-me sobre as façanhas dos homens, e sobre toda ganância e impetuosidade humana descritos em fatos históricos.

Fenice era uma vila pobre, com poucas casas e seus habitantes, em sua maioria agricultores e lavradores, eram simplórios e temerosos.
Meu pai dizia que o medo estampado no semblante dos moradores devia-se a uma floresta que havia nas redondezas.

Uma floresta onde rumores espalhados por toda a França relatavam sobre seres sobrenaturais que a guardavam. A “Floresta dos Desesperados” era seu nome, e entre todos que entravam nela ninguém havia saído desde os primeiros relatos sobre Fenice.

Mas, após 10 anos em Bordeaux, eu já havia esquecido tudo isso, e mesmo vivendo em meio ao forte fluxo de pessoas, eu buscava os bosques para lembrar-me de minha infância.

E foi em um de meus passeios que a vi, a mulher mais bela de toda a França: Béatrice da Navarra, e por ela, eu me condenei.

A conheci em 15 de agosto de 1284, em um dia que vagava pelo bosque local, quando a vi sentada à sombra de uma árvore, brincando com os pássaros, e de alguma maneira que não consigo explicar, percebi que ela olhava para a natureza como se compreendesse a vida, o mundo, a morte de uma forma que transcendia a compreensão humana. E assim me fascinei por tudo aquilo.

Ela tinha 18 anos, e mesmo com pouca idade ela já era viúva. e somente minhas histórias e poesias a faziam sorrir, trazendo o amor pela vida que antes ela tinha perdido… e em suas esperanças, nos apaixonamos…

E toda a trama se iniciou quando descobri que ela pertencia a realeza, por ser prima de Joana I de Navarra que se casou com o rei Filipe IV naquele mesmo ano.

Sabendo do nosso destino, vivemos cada dia com todo o amor que um homem e uma mulher deveriam ter e consumar… Mas poucos momentos juntos tivemos antes que tudo fosse descoberto…

E assim, fomos declarados proscritos e fugimos para Fenice, buscando segurança…

Fomos subjugados, condenados, caçados e perseguidos… até que fomos encontrados, e pouca piedade meus algozes tiveram de mim, mas a Béatrice nada fizeram, ela apenas foi levada e nunca mais a vi.
Soube depois que o rei preferia que ela vivesse para sofrer a vergonha que enfrentaria por se envolver com um plebeu.

Quanto a mim, fui surrado, abatido, torturado e deixado à beira da morte em um pântano.
Arrastei-me até a “Floresta dos Desesperados”, aquela misteriosa floresta que todos temiam, e foi nesse momento que descobri porque meu pai escolheu aquela cidade, e todos os seus desígnios ficaram óbvios…

(continua…)

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