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Um espírito em uma pedra – Parte 2: Um acordo selado com sangue

26, 03, 2008

Conto

…Eu estava perdido, perdido em lágrimas de desespero, e naquela floresta as sombras se moviam, e nenhum passaro cantava.

E mesmo a forte sangria, mesmo minha carne dilacerada, nada disso importava agora, e a paz da morte iminente foi trazida por uma leve brisa, como uma despedida deste mundo, mas nada disso me consolava.

Não foi necessário muita espera para que encontrasse meu destino. Porque logo, os sons dos meus gritos agonizantes ecoaram por toda a floresta, cortando o atordoante silêncio e atraindo várias sombras distorcidas entre as árvores…

Assim, pedi para que minha vida fosse ceifada, e meu sofrimento terminado. Não havia esperanças em meu semblante, apenas clamava a morte… e nesse pedido, um lobo apareceu, e torci para que ele atendesse minhas súplicas.

Ele se aproximou lentamente, olhou-me dos pés à cabeça, circundou-me algumas vezes, quando, quase sem forças, estendi minha mão em sua direção. E antes que desmaiasse de dor, pude ouvi-lo dizer:

“E Enfim, deparo-me com Ivan, filho de Heian, e por ele, despeço-me dando as boas-vindas e um longo adeus”.

Acordei… Estava em uma casa, mais parecida com uma cabana, uma cabana vazia e esquecida pelo mundo. E olhando para fora percebi que ainda estava dentro da Floresta dos Desesperados.

Não havia dor, medo, ou angústia… O mundo continuava a girar, e tudo parecia silencioso e fascinante. Agora via o mundo com outros olhos, tudo era muito fantástico, minha visão não se limitava mais à visão humana… Agora, podia ver os espíritos, e as sombras de outrora, agora haviam formas, todos eram seres maculados, amaldiçoados, perdidos e esquecidos pelo mundo, limitados a suas dores e lamentos.

Mas, inesperadamente, a porta se abriu e alguém entra calmamente olhando para mim e comentou:
– Vejo o quanto cresceu e o homem que se tornou, meu filho.
Ainda sem palavras, apenas observava meu pai olhando para mim com ar surpreso. Quando ele continuou:
– Sinto muito em ser direto no motivo que vim aqui, e me perdoe por não me estender em minhas explicações. Mas o tempo é injusto e você é requisitado com urgência… Por isso espero que entenda em breve quando tudo fizer mais sentido…
Filho, eu temia por você, pelo destino que escolhi para meu tão amado filho. Eu sabia que você se apaixonaria e se entregaria a algum amor proibido, você tem o meu sangue, fazeis parte dos últimos apaixonados desta era e sabia que você a levaria ao único lugar que você se sentiria seguro.
Foi por isso que quando você ainda era um garoto, eu te trouxe para Fenice, para que esse fosse o único lugar seguro para você, para que assim, algum dia, você se refugiasse aqui… e a proximidade daquela cidade com esta floresta não foi nenhuma coincidência. A casa dos mil destinos precisava de um guardião, e esta floresta precisava de um algoz, e eu escolhi você.
Felizmente e infelizmente ao mesmo tempo, tudo aconteceu conforme planejado, e você caiu na teia do destino que teci para você.

Surpreso e inconformado tentei argumentar, mas meu pai passava uma tranqüilidade inexplicável e assim ele continuou…
– Você pode me odiar agora pelo que planejei para você, mas somente sendo o algoz desta floresta você terá poder para se vingar. E como o sangue que corre em suas veias eu sei que anseias por vingança! Agora venha… você é esperado…

Ainda confuso com tudo que ouvira, segui meu pai para fora da cabana, e percebi que por fora, não era uma cabana, mas sim uma casa com detalhes impecáveis e precisos, parecia nova e bem diferente do que havia dentro dela e na entrada da casa havia um grande cristal de quartzo transparente entalhado rusticamente e que tinha a minha altura, e logo a porta se fechou, e ao se fechar, meu pai se virou e voltou-se para a casa e parecia retornar àquela mesma porta, quando perguntei:
– O senhor vai voltar a cabana? Como assim? Porque voltaríamos ao mesmo lugar?
Então, ele disse:
– Não vamos para aquela cabana… Vamos para outro lugar… Esta, meu filho, é a casa dos mil destinos, e ela pode nos levar a qualquer lugar, inclusive ao lugar em que é esperado, portanto, fique calmo, tudo será explicado… no tempo certo.
Assim, ele abriu a porta novamente, e entramos…

Ao entrar, tudo estava muito escuro e meu pai não respondia a meus chamados, mas uma força sobrenatural impelia-me a continuar, então segui e ao dar meus primeiros passos, feixes de luzes vindo de várias direções iluminaram o local e me vi em um palácio ancestral e em frente a um altar antigo, com fortes traços de esquecimento. E no centro havia uma esfera que flutuava no ar e brilhava uma incessante luz azul, uma luz que me chamava.

Cheguei próximo do altar, e os lobos apareceram e curvaram-se diante de mim, abrindo espaço para que eu me aproximasse da esfera. Fiquei na frente daquela esfera e a toquei com minhas duas mãos, e pude sentir…o mundo.

Era como sentisse o fluxo da vida passar por mim, como se naquele momento fizesse parte do mundo como as árvores ou as pedras, quando ouvi a voz do meu pai dentro de mim que dizia:
“És agora, Ivan, O algoz desta floresta, um espírito preso a uma pedra…”
Enquanto ele falava, me senti levado para dentro daquele cristal de quartzo que ficava em frente à casa e agora seu telhado era colorido e possuía todas as cores já descobertas. Então, meu pai continuou…

“…Estás condenado assim a vagar por 100 anos para que sua alma seja salva e assim possa descansar, mas até este dia, ceifarás almas… almas maculadas, almas desperdiçadas… Almas sem sentido, almas sem propósito…almas fúteis, almas perdidas em sua própria podridão…

Receberás assim, o poder de coletar essas almas condenadas em seu sábio julgamento. E para isso terás o poder de modificar-se, poderás adquirir a forma que quiseres pelo tempo que for necessário para que você conduza a alma até esta floresta e aqui condene-a!
…Ficarás retido a esta pedra ao lado da casa dos mil destinos até que esta floresta seja ameaçada ou alguma alma seja escolhida, enquanto isso guiarás àqueles que buscam esta casa… muito há para lhe ser ensinado… e seu aprendizado começa agora!”

Quinze anos foram necessários para que aprendesse sobre todos os mistérios daquela floresta, e sobre os segredos da casa dos mil destinos. E após esses intermináveis dias, recebi a visita de meu pai, ele foi até mim e disse: “Filho, é hora de conhecer sua primeira vítima…”.

(continua…)

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