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“Quem eram os Celtas?” – Parte 2

27, 04, 2008

2 – Relatos de Júlio César sobre os Gauleses

Segue abaixo parte de um texto escrito por Júlio César (retirado de “Comentários Sobre a Guerra Gálica”) onde o autor relata de forma direta como era a sociedade gaulesa vista por ele durante suas incursões. Isto pode ajudar a melhor entender esta misteriosa e curiosa civilização:

(…) Dois são em toda Gália os gêneros de homens, que são tidos em alguma conta e estimação. (…) Mas destes dois gêneros um é o dos druidas, o outro, o dos cavaleiros. Aqueles que entendem nas coisas sagradas, cuidam dos sacrifícios públicos e particulares, e explicam as doutrinas e cerimônias da religião: a eles acode grande número de adolescentes com o fim de instruir-se, e esses são tidos em muita estimação. Pois os druidas decidem de quase todas as contendas públicas e particulares; e, se comete-se crime, ou perpetra morte, se disputa-se sobre herança, ou limites, julgam e estabelecem recompensas e castigos; se algum particular ou povo recusa sujeitar-se à decisão, lançam-lhe interdito na participação aos sacrifícios; o que é entre eles pena gravíssima. Os que assim incorrem no interdito, são tidos por ímpios e celerados, todos se apartam deles, fogem do seu acesso e conversação, para que não recebam dano com a comunicação, nem se lhes faz justiça, quando a solicitem, nem participam de honra alguma. A todos estes druidas porém preside um, que exerce a suprema autoridade. Morto este, ou lhe sucede o que sobressai em dignidade, ou se há muitos iguais na hierarquia, é eleito pelo sufrágio dos druidas: algumas vezes também disputam a preeminência pelas armas. Estes, em certo tempo do ano juntam-se em lugar consagrado nas fronteiras dos Carnutes, que se reputam no centro de toda a Gália. Para aqui se dirigem todos os que têm pleitos, e sujeitam-se às suas decisões e sentenças. Supõe-se haver sido esta doutrina deparada na Bretanha, e dali transmitida à Gália; e ainda agora os que desejam estudá-la fundamentalmente, lá vão as mais das vezes aprendê-la.


Costumam os druidas abster-se da guerra, e não pagam os tributos a que estão sujeitos os mais Gauleses; gozam da isenção da milícia e da imunidade de todos os encargos. Excitados por tais vantagens, muitos são os que os procuram para instruir-se na sua ciência, seja por livre vontade, seja mandados por seus pais e parentes. É fama que aprendem aí grande número de versos (e alguns há que gastam vinte anos neste estudo); mas não se permite escrevê-los, sendo que em tudo mais, ou se trate de negócio público, ou particular, usam de caracteres gregos. Parece-me que assim o instruíram por duas razões: a primeira, evitarem que a sua doutrina se espalhe pelo vulgo; segunda, não deixarem os que a prendem, de cultivar a memória, fiados nos escritos; pois acontece ordinariamente, que com o socorro destes omitem muitos o cuidado de decorar, e o cultivo da memória. Fazem sobretudo acreditar que as almas não perecem, mas passam, depois da morte, de uns para outros corpos, e com isso julgam incitar-se principalmente ao valor, desprezando o medo da morte. Discorrem também muito sobre os astros e seu movimento, sobre a grandeza do mundo e a da terra, sobre a natureza das coisas, sobre a força e poder dos deuses imortais e transmitem os discursos à mocidade.
Outro gênero é o dos cavaleiros. Estes, quando é necessário, e ocorre alguma guerra (o que antes da chegada de César quase todos os anos costumava a suceder, ou para empreenderem correrias, ou para repelirem as dos vizinhos), vão todos à guerra, e como cada um mais sobressai em nobreza e haveres, tanto mais guarda-costas e clientes têm em torno de si. Nisto fazem consistir todo seu crédito e poder.


Toda a nação dos Gauleses é mui dada a superstições e por isso os que são acometidos de enfermidades graves, andam nas batalhas, e correm perigo, ou imolam vítimas humanas, ou prometem imolá-las; pois, a não se dar vida de homem por vida de homem, não julgam placável o poder dos deuses imortais; e estatuem sacrifícios públicos deste gênero. Alguns há que forma simulacros de descomunal grandeza, cujos membros tecidos com vime enchem de homens vivos, e aos quais lançado fogo, expiram homens abrasados pelas chamas. Reputam mais agradáveis à divindade os sacrifícios dos que são surpreendidos em furto, roubou, ou algum delito, mas, a falta destes, descem também aos sacrifícios dos inocentes.
Adoram principalmente ao Deus Mercúrio. Muitos são simulacros, que dele possuem: consideram-no como inventor de todas as artes, o guia dos caminhos e jornadas, o maior protetor no ganho de dinheiro e no comércio. Veneram depois dele a Apolo, Marte, Júpiter, Minerva. Destes têm quase a mesma opinião, que as mais nações: isto é, que Apolo expele as doenças, Minerva transmite os princípios dos artefatos, Júpiter tem o império dos céus, Marte preside à guerra. A este, quando se propõem pelejar, votam as mais das vezes o que hão de tomar na guerra; imolam, depois de vencerem, os animais tomados, e depositam os mais objetos da presa num lugar. É de ver em muitas cidades montões destes objetos acumulados em lugares consagrados; e quase nunca acontece em si o que tomou, ou tirar o que foi depositado, sendo que gravíssimo suplício com torturas está reservado a este crime.

Todos os Gauleses se apregoam descendentes de Dite (Plutão), segundo lhes é transmitido pelos druidas. Por isso calculam a divisão do tempo, não pelo número dos dias, mas pelo das noites e contam-se os dias natalícios, e os princípios de meses e anos de modo que o dia vem sempre depois da noite. Nos mais usos da vida quase que só diferem dos outros povos em não consentir que seus filhos se aproximem deles em público, senão quando têm crescido a ponto de poder suportar o encargo da milícia, pois reputam indecoroso que o filho de idade pueril esteja em público na presença do pai.
Ao dinheiro que, a título de dote, trazem as mulheres com que casam, juntam os maridos, feita a estimação, outro tanto de seus bens com os dotes. De todo este dinheiro faz-se um assento conjuntamente, e vai-se acumulando o rendimento. Àquele dos dois cônjuges que sobrevivem, pertence à parte de um e outro com o rendimento de todo o tempo decorrido até então. Os homens têm, na qualidade de maridos, direito de vida e morte sobre suas mulheres, assim como na de pais, sobre seus filhos; quando morre algum pai de família de ilustre linhagem, reúnem-se os parentes do morto, e se há suspeita sobre a morte, põem as suas mulheres a tormento dos escravos, e se se descobre que existe crime, fazem-nas perecer pelo fogo com todo gênero de torturas. Os funerais dos Gauleses são proporcionalmente a seu estado de cultura magníficos e suntuosos; todos os objetos, que amaram em vida, compreendidos os animais, são lhes lançados na fogueira; e pouco antes deste tempo os escravos e clientes, que constava lhes haverem sido caros, eram igualmente queimados nos funerais.

As cidades que passam por melhor reger-se, têm estabelecido nas leis, que se alguém souber da parte dos povos vizinhos por boato ou fama alguma coisa que interesse à república, o participe ao magistrado, sem comunicá-lo a qualquer outro; pois tem-se reconhecido que homens imprudentes e sem experiência se deixam aterrar por falsos rumores, e impelir ao crime tomando resoluções precipitadas sobre negócios da maior importância. Os magistrados ocultam o que parece reservado, e comunicam à multidão o que reputam conveniente. Dos negócios de Estado não é permitido falar, senão em pública assembléia.

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