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Welcome to the Jungle!

14, 05, 2008

floresta
Sábado passado eu fui à floresta. Mais precisamente eu fui à uma reserva florestal que há contígua à Praia do Tupé. Apesar de já ter adentrado florestas antes, como dessa vez eu possuía mais conhecimento, parei mais coisas que da última vez em que fiz isso.

Uma coisa que as pessoas têm trabalho para fazer é ambientar legal um grupo de jogadores. Mesmo que você descreva uma floresta, por exemplo, vai ser difícil para alguém que nunca esteve lá saber como é isso. É por isso que os escritores costumam viajar muito para poder escrever sobre os mais diversos personagens, ou ainda fazem como Jorge Amado, que só fala do que ele conhece muito bem, que é o lugar que ele nasceu e as coisas como são por lá.

Pois bem. A primeira coisa que as pessoas não lembram sobre as florestas é que é abafado e úmido. Úmido de verdade! Não é que as coisas estão todas molhadas à sua volta – elas estão – o que acontece é que há tanta umidade no ar que sua respiração começa a ficar pesada, você pensa que está suando demais, mas o que está de fato acontecendo é que sua pele não pode absorver mais nada de água, te deixando ensopado. Os índios não “trabalham” por seis meses dentro da mata por uma única razão: a floresta os deixaria todos com infecções nos pulmões. Nenhuma madeireira funciona deste período pelo mesmo motivo.

Outra coisa que você não lembra é que a floresta tropical não é um tapete verde. Se vista de cima, até parece mesmo, mas por dentro o que você vê é um monte de coisas radicalmente diferentes de tapetes. O chão é um sobe e desce sem fim, com muitos obstáculos grandes e pequenos no caminho, de maneira que andar para um lugar dois mil metros à frente leva muito mais que dois mil metros, devido aos desvios. E falando nos obstáculos, a maior parte será composta por árvores caídas, pois a regeneração natural das florestas desse tipo se dão através destas clareiras naturais. Imagine agora que as árvores que caem são aquelas mais altas, que ultrapassam o “teto” da mata… imagine agora que os obstáculos pequenos serão cobras venenosas que se escondem próximas à essas árvores, dentro ou fora destas, milhões de vespas extremamente agressivas e outras coisas que se te picarem, dificilmente te darão tempo para voltar à civilização.

Para se ter uma idéia, aquele lugar era tão cheio de onças e suçuaranas que não parávamos de encontrar marcas arvores marcadas com suas garras, uma vez que elas afiam e limpas as unhas nas envireiras, e vez em quando sentíamos o cheiro de carniça de suas refeições, mas não tínhamos medo, pois com o barulho elas fugiam. Cobras venenosas não fogem, mas se escondem, e se elas acham que você passou perto demais…

A terceira coisa que se deve lembrar é que há gente por todo o lado. Passamos por duas nações indígenas antes mesmo de entrarmos na mata, e lá dentro encontramos marcas de civilização, como lixo plástico, além de rastros de caçadores e mesmo velas vermelhas, pretas e roxas acesas perto de uma cachoeira para o seu orixá.

Imagine isso por semanas ou meses. Como afetará a cabeça de um urbano? Mesmo alguém acostumado com a vida dura nas montanhas ou no deserto vai sofrer muito por aqui.

Da próxima vez em que for descrever uma passagem por uma floresta tropical úmida (existem na África, Malásia, China, Brasil…), não se contente em dizer que a floresta é exuberante, quente, verde, interminável, cheia de insetos. Tudo isso está lá e muito mais, mais do que se poderia contar aqui. Há rios correndo lá, animais que avisam aos outros da sua presença, predadores e rebanhos de porcos selvagens com mais de setecentos indivíduos. Quanto mais se conhece, mas se percebe que as espécies de árvores mudam conforme se vai andando e o chão muda junto, se tornando arenoso, argiloso, encharcado, rico, pobre.

O ideal é falar de mudanças constantes, ou se o grupo está sendo guiado por alguém que sabe muito mais do que eles, como um guia local, dizer que o guia toma atalhos demorados demais, aparentemente sem razão e que este não vê problemas em andar demais para chegar em algum lugar apenas para mostrar uma plantação de mandioca ou uma vista bonita. Um local só mora em um lugar inóspito porque não conhece outra vida ou porque ama esse lugar, conhecendo-o muito bem de qualquer modo.

Vai entrar na floresta? Errado! A floresta vai engolir você!
Texto por: Ricardo “Cão Babão”
curupira
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