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A casa de chá – Parte 3

16, 05, 2008

O nosso ex-fuzileiro não era de falar muito, mas manjava de mecânica. Logo ele arrumou um carro para todo o tipo de terreno, devidamente fechado, para nos levar até lá em cima. Arrumou como pôde o motor que engasgava debaixo de uma chuva colossal e nos mandamos dali. Até que eu me sentia seguro, mas no meio do caminho o carro enguiçou de vez.

O mecânico deu uma olhada e chegou à seguinte conclusão: poderíamos resolver, mas levaria uma hora e estaríamos desprotegidos e sem visão clara do inimigo. Fiquei muito nervoso e disse que não havia o que pensarmos, que teríamos de ir embora naquele instante e o pessoal começou a me seguir novamente, ainda que inconscientes da minha liderança, mas aí aconteceu algo terrível. A imbecil da garotinha avistou a irmã e começou a gritar e a correr na sua direção. A irmã não tinha um braço e qualquer expressão de reconhecimento no olhar, mas andava em direção à pequena assim mesmo.

Tudo aconteceu muito rápido. O ex-fuzileiro atirou na testa da garota-zumbi e a sua irmãzinha gritou como se houvessem lhe amputado um pé. Imediatamente, percebemos um grande número de monstros vindo em nossa direção, por todos os lados, e o carro não era lugar para a gente se esconder. Teríamos de lutar, e meus colegas começaram a disparar no tronco dos mortos, que não se detinham, enquanto em gritava “é na cabeça, bando de filhos da puta!”, mas errava o meu disparo. O pior é que o meu xará John parecia que iria surtar com toda a loucura, o ex-fuzileiro tentava alguma coisa enquanto que a nossa colega de equipe corria atrás da menina, que desapareceu entre as árvores. Eu ajudei o único que estava fazendo alguma coisa direito a abrir caminho à bala e corri entre os cadáveres ambulantes, mas meu colega ficou para trás, tentando soltar o outro John, que estava sendo agarrado por três daqueles desgraçados podres. Eu me detive um instante e disse “parem de fazer barulho e corram por aqui”.

A mulher desapareceu atrás da menina, o nosso homem de armas se viu cercado com as balas acabando, John foi mordido no braço e eu tinha apenas um perseguidor, mas este era diferente, pois corria tanto quanto eu, que me cansava rápido. O terreno era uma merda e o barro estava muito fofo e escorregadio por causa da porra da chuva, que não parava por nada. Os raios eram tão barulhentos que a gente não ouvia nada e quase que não dava para perceber os disparos das armas. Eu estava gritando mais uma vez “corram” quando o monstro tropeçou e se pendurou na minha cintura, me mordendo imediatamente na altura das costelas. Explodi a cabeça dele, mas já ciente de que estava contaminado. Não me permiti nem por um instante pensar em como seria a não-vida de um cadáver ambulante e faminto, com a firme convicção de que o bom doutor deveria ter algum antídoto lá em cima do monte. Ou ele me curava ou iria morrer, o miserável.

Não sei bem como foi que aconteceu isto, mas o fato é que meus companheiros me alcançaram. A mulher voltou com a garotinha e o nosso guarda-costas havia decepado a própria mão para evitar a infecção. Eu faria o mesmo, mas fui mordido nas costelas. Foi então que entramos, dominamos o nazista que entre outras coisas era médico e começamos a tratar de nossas feridas. A mulher entendia algo de medicina.

Depois de ser desarmado e contido por meus colegas, ouvimos a história do bom doutor. Este era um “desertor” da Casa de Chá que afirmava haver grupos rivais em conflito dentro da organização. Uma das facções o obrigou a criar uma arma biológica, um vírus, que anima os mortos e que passam a ser os transmissores da doença. O primeiro experimento havia acontecido em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos e o único sobrevivente havia sido, vejam só, o outro John, que sobreviveu comendo carne humana durante um mês, coisa que foi veementemente negada por nosso agente. Ele disse ainda que foi a facção separatista que nos enviara atrás dos documentos sobre como criar seus vírus, pois apenas estes sabiam de sua existência, mas eu não acreditei em uma só palavra. Para mim o mais importante era que o antídoto estava além do alcance, em um barco no cais.

Como o relevo é inclinado e os mortos não têm coordenação decente, sua tendência é a de descerem o monte e de ficarem na área do sopé do monte e dentro das casas, mas com todo o barulho que fizemos, eles estariam tentando subir o monte agora mesmo. Se tentássemos descer até o barco, teríamos de lutar com uns cinqüenta deles que já estavam na porte da frente da casa, batendo, com o clima ruim e com a estrada péssima até chegar na cidade, encontrando o resto dos antigos habitantes da vila no caminho.

Fiquei profundamente abatido e nem minha arma eu tinha mais para fazer alguma coisa a respeito. Comecei a dizer, meio que de mim para mim, que tudo o que estudei não servia para nada, não construí nada e nem escrevi um livro. Todo o conhecimento simplesmente se acabaria comigo. Voltei-me para o doutor e lhe pedi que me dissesse tudo o que poderia falar a respeito dos mortos. Eu queria aprender. E ele me contou alguns fatos, como quem atende a um moribundo.

Havia um carro na garagem, mas era um carro antigo que não passaria nem pelo “pessoal” que estava no quintal. Daí eu joguei tudo pro ar e tive uma idéia própria de quem já aceitou a morte.

Eu iria tentar atrair os mortos para longe da casa, saindo por onde não fosse visto para então atirar chamando toda a atenção possível. Com sorte, os mortos de afastariam da casa o suficiente para que eles fugissem no carro até o cais e daí para o barco, com antídotos e o mar à frente. Eu seria destroçado muito rapidamente, não tinha medo da dor, além disso esperar para me tornar uma daquelas coisas não estava nos meus planos. De qualquer maneira eu iria morrer, já era certo.

Algo aconteceu, não obstante. Os mortos preferiram correr por dentro da mata, deixando o caminho livre para o carro passar por mim e me pegar. Foi, simplesmente, um milagre. Depois fiquei sabendo que o soldadinho não queria que retornassem por mim, mas o fizeram, ainda que não parassem o carro por completo. Abriram uma porta e eu me joguei lá dentro.

Ao chegar no cais pela primeira vez reparamos em um barco de pesquisa, muito diferente dos pesqueiros locais. Fomos lá para dentro, demos partida no veículo e fomos medicados com o antivírus. O remédio doeu mais que a dentada do zumbi e a reação alérgica que se seguiu me deixou sem sentidos, mas melhorei.

O resto é história.

Texto por: Ricardo “Cão Babão”
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