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Mitológia Viking

30, 06, 2009

Nas últimas décadas vem se intensificando o interesse popular por temas mitológicos, somando-se a inúmeros filmes, livros e outras formas de arte e entretenimento. Apesar disso, são muito escassas as publicações em língua portuguesa sobre a cultura viking, e principalmente, os mitos germânicos, motivo do interesse pelo livro em questão.

A obra Introdução à Mitologia Viking, do escritor britânico John Grant, foi dividida em duas partes, sendo a primeira um dicionário com as principais divindades, e a segunda, um estudo sobre os principais aspectos temáticos da mitologia retratada. Somado ao fato da obra ter um projeto gráfico audacioso, com belas reproduções de ilustrações, fotografias e figuras, tratar-se-ía de um trabalho de referência espetacular, tanto ao iniciante como ao especialista na temática.

Porém, o livro é uma grande decepção, principalmente quando analisamos mais profundamente seu texto e estrutura. Uma grande desvantagem para o leitor mais criterioso é a falta de dados sobre a iconografia: estão ausentes a data original e a autoria das imagens, especialmente as do Oitocentos. Logo no início, percebemos no autor um desconhecimento maior em história medieval: “os vikings eram um povo teutônico” (p. 6). Tanto os teutões, quanto os saxões, anglos, jutos, vikings, e outros, eram povos que, do ponto de vista etno-linguístico, são classificados como de etnia germânica. As outras duas grandes etnias da Europa pré-cristã, foram a celta e a eslava. E cada uma dessas etnias tinham grandes diversificações políticas, mas sempre com uma base em comum na língua, aspectos culturais e principalmente, um mesmo padrão mitológico.

Ainda em sua introdução, John Grant comete grandes equívocos, desconhecendo também maiores leituras em antropologia. A respeito dos vikings declara: “…de uma crueldade bárbara (…) matando homens e crianças e violando mulheres (…) Os métodos de carnificina usados com os camponeses e os pescadores eram repugnantes (…) estes crimes faziam também com que a maior parte dos membros da cultura viking empalidecessem” (p. 6-7). O tema da violência é um conceito que deve ser sempre relativizado em História, assim como os estereótipos “bárbaro”, “civilização”, “progresso” e “humanidade”.

Afinal, os vikings, apesar de utilizarem métodos considerados violentos, não adotavam o recurso da tortura, amplamente usada na Europa medieval que, diga-se de passagem, era toda ela já cristianizada – isso sem entrarmos em outros pormenores, como a Inquisição e as chacinas praticadas pelos cruzados na Terra Santa, matando e torturando em nome da  Santa Igreja. Assim, ética e moral são conceitos que variam de cultura para cultura. Se para um francês cristão os vikings e os orientais eram pagãos bárbaros e desumanos, um muçulmano medieval teria o mesmo olhar para o europeu que visitava suas terras (este é um tema largamente discutido por especialistas como Georges Duby e Jacques Le Goff).

Em relação ao “empalidecimento” dos membros da cultura nórdica, lembramos que a palavra viking era utilizada nos primeiros tempos das incursões (século VIII d.C.) a todo camponês, agricultor ou membro da alta sociedade escandinava que se aventurava pelo mar afora para conseguir alguma espécie de lucro ou vantagem heróica. Portanto, não havia por parte das comunidades escandinavas nenhum caráter moralista negativo a seus guerreiros que retornavam das pilhagens.

Grant segue em seu texto também com terminologias pouco apropriadas. Em relação às sepulturas, utilizou a frase “padrões de pedras” (p. 24), mas o correto seria “alinhamentos megalíticos em forma de navios”. Na legenda para a fotografia da pedra de Lindisfarne, na Inglaterra, o autor descreve: “…acredita-se que comemora o primeiro ataque viking à ilha” (p. 25). A pedra foi erguida pelos britânicos no século IX e tem duas faces: uma com sete vikings portando espadas e machados e outro lado referenciando o Juízo Final. Ou seja, associa os pagãos com o eminente fim do mundo. Com isso Grant cometeu um grave erro ao citar esta pedra como um monumento, pois de maneira nenhuma um cristão teria comemorado um ataque viking a um lugar santo!

O famoso cofre de Franks (Inglaterra), recebeu na legenda uma datação do século XVIII (p. 28), mas, na realidade, ela foi fabricada no século IX d.C.. Mas o maior erro histórico do autor acabou sendo a frase: “Os vikings também foram para o sul, até o Mediterrâneo – com os celtas irlandeses – chegando a ameaçar o império romano” (p. 119). Isso é simplesmente impossível, porque os vikings (século VIII-XI d.C.) eram do período medieval, muito depois da queda do Império Romano.

Os equívocos com relação à mitologia são bastante amplos. Nos verbetes sobre os deuses Inverno e Verão (p. 12 e 15), o autor cometeu um lapso lingüístico (caso não tenha sido culpa do tradutor). Os vikings chamavam o verão (do latim veranum) de Sumar, e o inverno (hibernum) de Vetur. Um dos únicos deuses nórdicos em que a grafia é idêntica ao português atual é a do deus Sol.

No verbete sobre o deus Modi houve um erro de transcrição repetida ou de impressão tipográfica: “Filho de Thor e da giganta Iarnsaxa. Após o Ragnarok, ele e o seu irmão Modi…” (p. 13). O correto seria Magni, o outro filho do deus Thor.

A respeito da tela do deus Odin e Brunhilde, ela não foi originalmente publicada em 1915 (p. 96) e sim em 1890, de autoria do pintor F. Leeke.

Com relação às valquírias, o autor efetuou contradições em seu texto. Na página 88, ele afirma sobre essas personagens míticas: “jovens belíssimas”, e na página seguinte: “nas lendas originais, as valquírias eram muito belas”. Mais adiante, comentado uma das maravilhosas ilustrações de Arthur Rackham, Brunhilde (1910), o autor mudou de opinião: “pouco nos leva a acreditar que os vikings as vissem como lindas donzelas de belas formas” (p. 98). Mas afinal, as tradições míticas não refletem as concepções de uma sociedade? O mito de Afrodite não encarna também o ideal de beleza feminino dos gregos? É óbvio que os vikings idealizavam mulheres de belas formas, e o mito das deusas nórdicas Iduna, Freyja, Brunhilde e as valquírias, nada mais refletem do que esse ideal.

Ainda sobre as valquírias, o autor comenta: “A imagem moderna das valquírias foi colorida pela execução das óperas de Richard Wagner: vêmo-las como objecto do ridículo, roliças, de peito grande” (p. 91). Nada mais incorreto. Analisando as fotografias da primeira execução oficial completa de O anel dos Nibelungos (1876, Bayreuth), percebemos que as cantoras que executavam o papel das donzelas em questão, não eram nada roliças, pelo contrário, eram beldades que em nada denegriam a mitologia original. A cantora Amalie Friedrich, que fez o papel de Brunhilde em 1876, era muito bonita. As ilustrações e pinturas utilizadas como cenário desta ópera, como os quadros de Max Bruckner e do citado Arthur Rackham entre 1870-1910, representam as virgens guerreiras como criaturas absolutamente maravilhosas. Em especial, a pintura da valquíria de Theodor Pixies para o cenário de 1870, é simplesmente uma donzela loura, magra e linda! A questão é que já no século XX, algumas cantoras germânicas que se tornaram famosas interpretando a dita obra musical não tinham um corpo que talvez fizesse juz à sua voz… Para encerrar o comentário, o autor esqueceu de citar uma famosa característica das valquírias: seu aspecto de donzelas-cisnes, que acabou por criar no imaginário artístico moderno as enormes asas laterais em seus capacetes.

Ao comentar sobre o deus Freyer, John Grant novamente elaborou comentários moralistas: “…seu culto parece ter sido bastante desagradável, incluindo práticas tais como sacrifícios humanos.” (p. 57). Qualquer análise séria sobre fenômenos religiosos e míticos deve ser relativizada, porque os referenciais simbólicos mudam de uma cultura para outra. Temas como sacrifícios humanos e canibalismo fizeram parte de quase todas as culturas humanas, e não podem ser entendidos a partir do referencial ético-cristão do ocidente moderno.

O moralismo subjetivo do autor torna-se direto quando trata da deusa Freyja: “não foi nenhum modelo de virtude. Seria de esperar que tivesse sido insultada pela sua sexualidade – especialmente numa sociedade primitiva, em que se espera que as mulheres sejam castas e condescendentes” (p. 62). Muito pelo contrário! Freyja era uma das deusas mais veneradas pelos escandinavos. Aliás, as mulheres vikings eram bem liberadas para os padrões dos cristianismo medieval, pois podiam ter propriedades, divorciar-se quando bem entendessem e escolher seus relacionamentos sexuais. A poligamia era uma prática muito comum e aceita entre os vikings, principalmente na Suécia, onde o deus do sexo, Freyer, era o mais adorado.

Citando várias deusas nórdicas, o autor acabou por se confundir: “Eástre, Gode, Hlodin, Holda, Horn, Nerthus, Ostara e Wode”. (p. 64). Acontece que Eástre e Ostara são denominações para a mesma deusa! Identificada com a primavera, o seu culto inspirou a moderna celebração da páscoa (Easter, em inglês; Ostern, em alemão) com ovos e coelhos, símbolos da sua fertilidade.

Em relação ao deus Loki, o autor exagerou: “…é o mais fascinante dos membros do panteão escandinavo” (p. 67). Claro que é uma opinião pessoal, mas em relação a esse mesmo deus, Grant cometeu outra contradição. Na página 57 ele afirma que os três principais deuses foram Odin, Thor e Freyer, algo que corroboramos plenamente. Mas já na página 79, ele cita que a trindade máxima seria Loki, Odin e Thor!

O final da obra torna cada vez mais óbvio os referenciais moralistas-cristãos do autor. Em relação ao Valhala, ele seria tão apelativo aos vikings que estes cometeriam suicídio para poderem adentrá-lo mais rapidamente: “…se deixariam cair sobre as suas lanças para se habilitarem a fazer parte dos eleitos de Einheriar”. (p.88). Uma afirmativa totalmente falsa. O que era desonroso para um viking era não poder morrer com a espada em punho, em um campo de batalha. Claro que podem ter existido vikings suicidas, mas desconhecemos qualquer caso desta natureza nos registros históricos.

Novamente citando Wagner, o autor mais uma vez errou: “A versão da história retratada no ciclo de O anel, de Wagner, é uma versão tardia, não tem relação com as lendas escandinavas”. (p. 97). Ora, qualquer estudioso do compositor alemão sabe que ele se baseou na versão do Volsunga saga (séc. XIII), ao invés de Das Nibelungenlied, versão alemã do século XIII. Por um motivo bem óbvio: a versão alemã não cita em nenhum momento qualquer divindade! Ao eleger a saga escandinava, Wagner apenas alterou o nome dos principais deuses – em vez de Odin, adotou o nome saxão-teutão Wotan; para Thor, adotou Donnar; para o herói Siegurd, adotou o nome Siegfried.

O desfecho do livro não poderia ter sido pior. Comentando sobre o Ragnarok, Grant acabou por revelar suas próprias concepções religiosas: “O cristianismo também deixou a sua marca na mitologia escandinava, estando escrito que, após o Ragnarok, verificar-se-á a encarnação de um deus grande demais para ser nomeado – por outras palavras, Jeová”. (p. 118). Ou seja, para o autor, dentro da própria narrativa mitológica dos vikings já encontravam-se as bases para a legitimação do futuro cristianismo. Uma afirmativa totalmente equivocada, pois a mitologia nórdica era essencialmente cíclica: após o declínio e morte dos deuses, todo o ciclo cósmico iria novamente ser repetido. No politeísmo viking original, não há espaço para um deus ou profeta redentor nos moldes hebraico-cristãos.

Em conclusão, o escritor John Grant realizou uma obra repleta de equívocos, erros históricos e interpretações falsas, revelando um profundo desconhecimento sobre a cultura dos vikings. Ao leitor de língua portuguesa resta a consulta em duas obras de referência muito mais completas e sérias: a Enciclopédia de mitologia nórdica, clássica e celta, de Arthur Cotterell (1998), e a excelente obra analítica Mitos nórdicos, de R. Page (1999). Para maiores aprofundamentos acadêmicos, recomendamos os trabalhos do francês Regis Boyer, que é considerado o maior especialista da atualidade.

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One Comment leave one →
  1. 5, 03, 2010 2:44 pm

    Olá, gostei muito de seus artigos, gostaria de te convidar para partipar de uma rede de troca de conteúdo, para mais detalhes me adiciona no msn co_herdeiro@hotmail.com ou me manda um email ok. Abraços. Samuel

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