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A Alquimia

2, 07, 2009

A grande obra


A primeira tarefa do discípulo consiste na busca da matéria-prima. O seu nome tradicional – Pedra dos Filósofos – nos dá uma idéia bastante clara da substância, servindo-nos para começar a identificá-la. “É realmente uma pedra porque ao ser extraída das minas apresenta as mesmas características exteriores que o resto dos minerais (Fulcanelli, Les Demeures Philosophales)”. Esta Pedra dos Filósofos, ou “sujeito” desta arte, não deve ser confundida com a Pedra Filosofal. Dito sujeito unicamente se converte na Pedra Filosofal quando, após ser transformada e aperfeiçoada pela arte, alcança a sua perfeição final e por conseguinte a propriedade da transformação. Na literatura alquímica, diz-se que a matéria-prima tem um corpo imperfeito, uma alma constante e uma cor penetrante, e que contém um mercúrio claro, transparente, volátil e móvel. Esconde no seu coração o ouro dos filósofos e o mercúrio dos sábios. Recebeu uma multidão de nomes, mas nunca nenhum alquimista revelou publicamente a sua verdadeira natureza. Uma das maiores dificuldades que apresenta a alquimia consiste em identificar esta matéria. Nos textos alquímicos quase sempre se omite toda forma completamente enganosa. A Obra é preparada e levada a cabo utilizando esta única substância que, após ser identificada, deve ser obtida. Para isso é essencial viajar até o lugar da mina e obter o sujeito no seu estado bruto. Isto em si já é uma tarefa árdua, e é necessário fazer um horóscopo para determinar qual é o momento mais propício. A Obra deve ser realizada na primavera do Hemisfério Norte, sob os signos de  Áries, Touro ou Gêmeos (a época mais propícia para começar é a de Áries, cujo símbolo celeste corresponde a linguagem esotérica ou críptica, ao nome da matéria-prima). Como preliminar à Obra, o sujeito deve ser purificado, libertado dos detritos. Isto se realiza utilizando técnicas bem conhecidas pelos metalúrgicos; diz-se, no entanto, que ditas técnicas requerem muita paciência, ingênio e esforço. Outra operação consiste na preparação do fogo secreto, Ignis Innaturalis, também denominado fogo natural. Os alquimistas definem este fogo secreto ou Primeiro Agente, como água seca que não molha as mãos e como o fogo que arde sem chamas. Este é um tema que deu origem a incontáveis equívocos e confusões. Pontanus reconhece ter equivocado neste ponto mais de duzentas vezes. Realmente, essa substância é o sal, preparado a partir de cremor tártaro mediante um processo que requer perícia e um perfeito conhecimento da química. O processo inclui a utilização do orvalho primaveril, que se recolhe de uma forma ingeniosa e poética e que a continuação é o destilado. Quando já estão preparados a matéria-prima e o Primeiro Agente da Obra, os preliminares se dão praticamente por finalizados. A matéria-prima é introduzida num morteiro de ágata (ou de alguma outra substância de grande dureza), é amassada com o maço, misturado com o fogo secreto e umedecida com o orvalho. A “mistura” resultante é introduzida na continuação, num recipiente herméticamente fechado ou “Ovo Filosofal”, que se coloca no interior do forno de Atenor, o forno dos Filósofos. Este Atenor está desenhado de tal forma que o ovo pode se manter a uma temperatura constante durante longos períodos de tempo. O fogo exterior estimula a ação do fogo interior, razão pela qual deve ser controlado; em caso contrário embora o recipiente não se rompa, todo o trabalho se estragará. Durante essa etapa inicial, o calor do nascimento dos pintinhos tem muitos pontos em comum com o processo alquímico. Dentro do ovo, os dois princípios contidos na matéria prima – um solar, quente e masculino, conhecido como enxofre, e o outro lunar, frio e feminino, conhecido como mercúrio – atuam um sobre o outro. “Então, estes dois (que Avicena chama a cadela Corascene e o cão Armênio)” – escreve Nicolas Flamel – “estes dois, digo, ao colocá-los juntos no recipiente do sepulcro, se mordem de uma forma cruel e pelo seu forte veneno e terrível ira nunca se soltam a partir do momento em que se agarram (se o frio não o impede), até que os dois como conseqüência das suas babas venenosas e dos seus ataques mortais, terminam completamente ensangüentados e acabam matando-se e cozinhando-se no seu próprio veneno que, depois da sua morte, os converte em formas naturais e primitivas, para passar depois assumir uma forma nova, mais nobre e melhor”. Desta forma, a morte – que é uma separação – lhe segue um longo processo de decadência que dura até que tudo apodrece e os contrários se dissolvem no nigredo líquido. Esta escuridão que supera todas as outras escuridões, este negrume entre os negrumes, é o primeiro signo inequívoco de que se dá conta de estar no bom caminho; daí o aforismo dos alquimistas: “Não há geração sem corrupção”. A etapa de negrume acaba quando a superfície do mercúrio voa pelo ar alquímico dentro do microcosmo do Ovo Filosofal, “no ventre do vento”, recebendo as influências celestinas e purificadoras de cima. Volta a cair, sublimado, sobre a Nova Terra que finalmente emerge. Ao ir aumentando muito lentamente a intensidade do fogo exterior, as partes secas vão ganhando terreno às úmidas, até que o continente aparecido se coagula e se desseca completamente. Enquanto isto sucede, aparece um incontável número de belas cores que correspondem à etapa conhecida como Causa do Pavão Real. No final do “segundo trabalho” aparece a Brancura, o albedo. Quando se alcança a Brancura, diz-se que o sujeito já tem força suficiente para resistir ao calor do fogo e só tem que dar um passo mais para que o Rei Vermelho ou Enxofre dos Sábios, saia do ventre da sua mãe e irmã, Ísis ou o mercúrio, Rosa Alva, a Rosa Branca. No terceiro trabalho se recapitulam as operações do primeiro, que adquirem agora um novo significado. Começa com pompa de uma boda real. O Rei se reúne no Fogo do Amor (o sal ou fogo secreto) com a Rainha bendita. Como Cadmo atravessou a serpente com a sua lança, o enxofre vermelho fixa o mercúrio branco, e com esta união se consegue a perfeição final, nascendo a Pedra Filosofal.

Resumindo brevemente:
Dentro da Obra existem três pedras ou três trabalhos ou três graus de perfeição.
O primeiro trabalho termina quando o sujeito está completamente purificado (mediante sucessivas destilações e solidificações) e reduzindo a uma substância mercúrica pura.

O segundo grau da perfeição se alcança quando dito sujeito foi cozido, digerido e fixado, convertido-se no enxofre incombustível.

A terceira pedra aparece quando o sujeito foi fermentado, se multiplicou e alcançou a Perfeição Final, sendo uma tintura fixa e permanente: a Pedra Filosofal.

A Aquimia Verdadeira e a Falsa

Como os verdadeiros objetivos da alquimia sempre ficaram encobertos pelo simbolismo hermético com que se exprimem os conhecimentos sobre a transmutação dos metais, é inevitável que surjam erros e confusões quando os não iniciados tentam interpretar de forma muito literal as receitas esotéricas. Fascinadas pelo espelhismo fatal do ouro, pessoas de todas as índoles – quem os verdadeiros alquimistas chamam desdenhosamente de “puffers”, por utilizar os foles de uma forma frenética -, ignorando os princípios verdadeiros da arte, realizaram inumeráveis experimentos, normalmente sem nenhum êxito, freqüentemente com resultados desastrosos, que fizeram com que a alquimia fosse desprezada e considerada uma “arte falsa”, dando pé a atitudes tão desdenhosas como a de Chaucer: Quem pratique esta maldita arte não terá nunca ouro bastante, porque todo o ouro nisto investido, não há dúvidas, o verá perdido”!
A resposta clássica a estas linhas nos é fornecida por Artephius:
“Pobre imbecil! Verdadeiramente és tão idiota para acreditar que ensinamos de forma aberta e clara o maior e o mais importante de todos os segredos? Garanto-te que quem explique com o sentido literal e corrente das palavras o que escreveram os filósofos, se encontrará envolvido pelos meandros de um labirinto do qual nunca conseguirá escapar, pois não terá o fio de Ariadna para que lhe mostre a saída. E ao obrar desta forma perderá tudo o que gastou”.
Estes tipos de advertência se encontram com freqüência nos textos alquímicos, mas os “puffers” não lhes prestaram nenhuma atenção e pela sua estupidez acabaram em pedaços pelas explosões ou se envenenaram com as fumaças nocivas. Mas apesar de sua temeridade, deve-se reconhecer que foram importantes os seus descobrimentos químicos, e com freqüência se afirma que foram eles, mais do que os verdadeiros alquimistas, os que sentaram as bases da química orgânica. Dom Pernety, no seu Dictionnaire Mytho-Hermétique, afirma:

“A maioria dos escritores discrepam na hora de definir esta ciência, porque existem dois tipos de alquimia, a verdadeira e a falsa…   A verdadeira alquimia consiste em aperfeiçoar os metais e manter a saúde. A falsa alquimia consiste em destruir ambas as coisas. A primeira faz uso dos agentes da natureza e imita seus processos. A segunda se baseia em princípios errôneos e utiliza como agente o tirano destruidor da natureza. A primeira, partindo de uma pequena quantidade de matéria vulgar, cria algo de grande valor. A segunda, partindo de uma matéria de grande valor, o próprio ouro, cria uma matéria vulgar, fumaça e cinzas. O resultado da verdadeira alquimia é a cura imediata de todas as doenças que afligem à humanidade. O resultado da falsa consiste nessas mesmas doenças que tão freqüentemente afetam os “puffers”. A alquimia ficou desacreditada, já que um grande número de péssimos artistas, com sua falsidade, enganaram os ingênuos e os ignorantes. O ouro é o objeto de ambição humana. Os perigos aos quais devemos nos expor, tanto na terra como no mar, para conseguir este metal precioso, desanimam a muito poucos. Um homem chama à sua porta; diz saber a forma de obter na sua própria casa, o filão de onde procedem todos os tesouros, arriscando somente uma parte do que você possui. Confiando nas suas palavras, cuja falsidade você desconhece porque ignora como funcionam os mecanismos da natureza, você assente, semeia o seu ouro e não colhe mais que fumaça; você arruína, e acaba odiando o impostor e duvidando da existência da alquimia, e tudo porque você não alcançou o objetivo pretendido, pois tomou o caminho na direção oposta…   Poucos artistas são verdadeiros alquimistas; existem demasiados que trabalham seguindo os princípios da química vulgar. Estes últimos, baseando-se nesta arte, divulgam todo o tipo de sofistas e os impostores os utilizam para, depois de terem se arruinado eles mesmo, arruinar a outros. A sua arte teria sido desprezada por todas estas razões se não fosse por terem existido outras mais fortes para avaliá-la, já que muitos dos seus descobrimentos foram úteis para a humanidade. Os verdadeiros alquimistas não se vangloriam dos seus conhecimentos, não pretendem enganar ou estafar as pessoas para conseguir seu dinheiro, porque como Morien disse ao rei Calid, aqueles que têm tudo não necessitam de nada. Dão as suas riquezas aos necessitados. Não vendem o seu segredo e, transmitem o conhecimento a uns poucos amigos, é só àqueles que acreditam que o merecem e que o utilizarão de acordo com a Vontade Divina. Conhecem a natureza e o seus conhecimento para alcançar, como diz São Paulo, o do Criador”.
Alcançar os conhecimentos do Criador é correr o véu e converter a escuridão da ignorância na luz da sabedoria. Obter esta suprema sabedoria é se fundir conscientemente com Deus e amá-lo, viver para amar. Mas como pode se fundir conscientemente com Deus e amá-lo? Vivendo para amar. Mas como pode se escapar o homem da prisão da sua própria imperfeição? Como pode transcender os seus condicionamentos atuais e se transformar em Deus? Esta é a pergunta com a qual finalmente temos que nos enfrentar quando nos aproximamos do mistério da alquimia. Aquele que deseje encontrar a resposta, não só intelectualmente, mas como forma de Vida – de fato, como um caminho para a Vida – deve começar por olhar a si mesmo minuciosamente e com atenção. Se é honesto, perceberá que a raiz de todos os seus problemas é o desconhecimento quase que absoluto do que é mais importante: o seu verdadeiro eu. O homem, por não saber distinguir o Ego do Eu, tem enturvado o espírito e dissipado a energia, motivo pelo qual a caminhada tropeçando pela vida, lutando com os efeitos sem que o seu espírito perceba as causas. Como conseqüência de tudo isso, acaba por quase não se diferenciar daquele rei louco de quem se conta que se retirou à masmorra mais escura do seu palácio e que, apesar de lhe rogarem que saísse, se negou a fazê-lo. Quando os seus ministros, desesperados, decidiram para tentar persuadi-lo que subisse e voltasse a reinar, ele os afugentava com grunhidos. Tentavam lhe falar do belo que era o seu palácio, dos seus maravilhosos jardins, do seu harém, dos seus amigos que sofriam pela sua ausência…,   mas nenhuma dessas razões tinha cabimento na sua mente louca e os chamava de mentirosos, e os acusava de pretenderem lhe roubar um monte de inservíveis trapos asquerosos que ele dizia que eram as suas possessões. Se o que temos, em lugar de nos proporcionar liberdade nos escraviza, para que nos serve? Aquele que queria ser livre deve se perguntar para que vive. E de se libertar desse condicionamento fatídico que lhe vem dado pela herança, o entorno e a sociedade, porque “o reino está dentro”. Descer até o nosso interior, olhar o nosso interior, é ao mesmo tempo ascender – uma assunção -, olhar a autêntica realidade exterior. A renúncia ao eu é a fonte da humildade, assim como a base de toda ascensão verdadeira. O primeiro passo consiste em se olhar por dentro, em contemplar única e exclusivamente o nosso verdadeiro eu. Mas aquele que só chega até aqui, fica na metade do caminho. O segundo passo consiste em olhar com eficácia ao exterior, em observar de forma perseverante, ativa e independente, o mundo exterior…

“Entendendo o mundo como entendemos a nós mesmos, porque ambas as coisas constituem as metades inseparáveis de um todo. Somos filhos de Deus, sementes divinas. Algum dia seremos como o nosso pai”. (Novalis)

Autor: Stanislas Klossowski

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