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Trabalho em grupo e RPG

18, 07, 2009

Imagine a cena

Mestre: O vilão ergue sua espada, cheio de ódio, diante de uma mulher ajoelhada e indefesa que jaz a seus pés. Ele olha para o grupo de aventureiros e zomba- “Não se aproximem heróis, ou então…”. – O que vocês farão?

Mago: Droga, ele tem uma refém!

Clérigo: Precisamos salvá-la primeiro!

Bárbaro: Vou pular em cima dele!

Clérigo: Ainda não, bárbaro! Ele pode atacar primeiro e feri-la!

Mago: Tenho um plano. Agindo ao mesmo tempo, teremos uma chance maior de salva-la.

Clérigo: Concordo!

Bárbaro: Deixa eu pular em cima dele!

Mago: Calma! Vamos fazer o seguinte: Eu solto uma magia para atrapalhar o movimento dele. Quando o vilão se desequilibrar, o clérigo entra na frente da garota e a protege com o escudo. Quando ela estiver em segurança…

Bárbaro: …Ai, eu corro com minha espada e…

Clérigo e Mago em uníssono: …PULO EM CIMA DELE!

Bárbaro: Legal! Por isso adoro trabalho em equipe!

Não importa a área de atuação do profissional, um fato parece sempre se repetir: a necessidade de trabalho em grupo. As inter-relações humanas tornam-se cada vez mais complexas. Grupos de especialistas de áreas aparentemente diferentes precisam unir esforços para alcançar objetivos em comum. São os papéis sociais, representados por cada um de nós, neste jogo chamado “vida real”.

O problema é que esse respeito pelo outro, a cooperação, a capacidade de superar nossos desejos egoístas em prol de um grupo, não são habilidades inatas. Pelo contrário, passamos boa parte da vida aprendendo a tolerar e cooperar com nossos semelhantes.

Ao nascermos, estamos livres das leis sociais e morais. Somos movidos apenas pelo desejo, e através do choro conseguimos tudo aquilo que queremos. Livres de julgamentos internos ou culpa. Onipotentes.

Vem então o princípio de realidade, a maturidade do cérebro, o desenvolvimento psíquico. Descobrimos que nossa mãe não é apenas nossa, que existem regras, e que nem todos os desejos podem ser satisfeitos.

O RPG se revela então uma maravilhosa oportunidade de exercitar o trabalho em equipe. Numa época em que se prega apenas a competitividade, superar o adversário, ter maior lucro, “roubar” os clientes do concorrente, o jogo simbólico do RPG resgata a união do grupo para superar um desafio; tudo isso sem a necessidade de derrotar outro ser humano.

Sabe-se que, muitas vezes, as primeiras experiências de trabalho em grupo, principalmente na escola, podem ser traumáticas. Existe a necessidade de alcançar uma nota, alguns professores (minoria esmagadora) sem preparo para mediar conflitos, pais que exigem a perfeição dos filhos. Não são raros aqueles dentro do grupo que se acomodam, não fazem sua parte da tarefa. Existem aqueles que ficam sobrecarregados, por terem de arcar com a maior parte da tarefa. Outros ainda são isolados por não serem tão criativos. Situações que provocam um sofrimento mental, muitas vezes, desnecessário.

Logicamente, como seres emocionais que somos, mesmo se tratando de um jogo, podem (e irão) surgir conflitos numa partida de RPG. Isso é ótimo e imprescindível para nossa formação psíquica. O conflito é uma característica inerente ao comportamento humano, um fenômeno inevitável em relações grupais. Somos diferentes desde nossa aparência física até a forma que estruturamos um pensamento. Viver em sociedade é aceitar o diferente, discutir, entrar em consenso. Algumas vezes precisamos abdicar de nossas convicções, noutras, lutar com unhas e dentes.

A grande diferença para as situações reais é que numa sessão de RPG o enquadre é diferente.

Trata-se de um jogo, sem ganhadores ou perdedores e o erro não resulta em castigo concreto. Esse ambiente gera uma rede de proteção para o psiquismo. Tal proteção permite a liberdade para experimentar diversas situações e possibilidades de interação grupal, uma vez que as frustrações e erros não ganham a mesma proporção que teriam na escola ou num ambiente de trabalho. Ao mesmo tempo existem estruturas, regras, papéis sociais; tudo isso garante ao RPG alguma proximidade com a realidade.

Esta união entre elementos da realidade e possibilidade de errar, sem conseqüências graves, permite uma experimentação segura. Logo, temos um potencial lúdico fantástico em cada partida de RPG. Não apenas diversão, mas também uma forma de expressão muito rica, o que sem dúvida, colabora para uma vida psíquica mais saudável.

Jogue sem medo. Ruim é não conhecer. Bom mesmo é jogar RPG.

Forte abraço,
Jônatas D. P. Leite – Psicólogo – CRP 06/ 95224

Fonte: Site da Campanha Bom é Jogar RPG

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