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Agressividade

26, 08, 2009

-Eu ataco ele!
-Vou matar o monstro!
-Acerto ele com a minha espada!

Quem costuma jogar RPG certamente já ouviu (e disse) estas frases. Situação corriqueira durante partidas. Inofensiva para os participantes, preocupante para alguns pais, observadores e religiosos que não conhecem o jogo.

Motivo da preocupação: tais frases soam agressivas, podem incentivar a violência.

Será mesmo?

Deduções como essa partem da falta de conhecimento sobre psiquismo humano. Moralismo barato desprovido de conhecimento científico. Entender o ser humano, suas reais motivações, sonhos e desejos, é uma tarefa árdua. As pessoas não são aquilo que queremos ou achamos, são o que são.

Fomos educados com base em conceitos nem sempre verdadeiros: “O ser humano nasce bom”, “Crianças não têm maldade”, “Podemos reprimir toda nossa agressividade”. Mentiras.

Gostando ou não, nós somos humanos. A agressividade faz parte de nossa natureza. Na verdade ela é necessária para a sobrevivência humana.

Surpresos? Estaria eu fazendo apologia a violência? Nada disso.

O conceito de agressividade foi deturpado, principalmente pelo nosso ensinamento ocidental dualista: ou é bom ou é mau. Agressividade corresponde a um tipo de energia com potencial para destruir e transformar. Quando o homem primitivo caçava para se alimentar estava se valendo da agressividade. A criança que chora, alertando sua mãe da fome, também. Sempre que enfrentamos uma situação difícil usamos a agressividade para “destruir” o problema. A violência, agressividade voltada para destruir o outro ser humano, esta sim é perigosa e deve ser combatida.

Alguns acreditam que se a agressividade for totalmente reprimida ela nunca se tornará um ato violento. Novamente mentira. A psicologia prova, e posso garantir por experiência própria como terapeuta, que negar a própria agressividade, além de ser impossível, resulta em diversos tipos de doenças. Essa energia encontrará outras formas de se manifestar: dores de cabeça, dores no corpo, pesadelos, baixa da resistência corporal contra doenças e outros males.

Em alguns casos, pessoas aparentemente calmas, foram na verdade boa parte de suas vidas reprimidas. Além de problemas somáticos acima citados, tais pessoas podem exibir o famoso “estado limite”: quando explodem, não xingam apenas, atacam fisicamente. Um rompante de fúria incontrolável. Não raramente, este estado de fúria resulta em tragédias.

Recordar, repetir, elaborar. Superamos nossa agressividade aceitando sua existência e trabalhando-a de forma positiva. Uma das formas de trabalhar esta agressividade é por meio de jogos simbólicos.
O RPG oferece uma excelente plataforma para este fim.

O mestre narra uma cena em que um monstro aparece. Cada jogador então pensa e visualiza a criatura. Concreta, os jogadores conhecem o monstro. Muitas vezes sabem suas estatísticas de jogo, aparência mais comum, poderes e fraquezas. Já, no plano simbólico, individual, o monstro adquire um significado diferente para cada jogador. O que as pessoas desconhecem é que este significado não é racional, mas sim resultado de uma vida psíquica, experiências e forças que nós não dominamos: o inconsciente.

Nosso inconsciente é formado por desejos, sonhos e fantasias. Nele não existem limites ou regras. Trata-se da parte mais selvagem, primitiva e insaciável de nosso psiquismo.

Ao criar a figura do monstro, ou qualquer oponente fictício do jogo, abre-se um espaço para que esta energia psíquica agressiva possa se manifestar de forma saudável. Então os jogadores atacam com espadas, magias e socos, na verdade não um monstro, mas sim as figuras de seu universo inconsciente.

Isso é maravilhoso, pois quando o inconsciente é severamente reprimido o sujeito adoece (como já foi posto anteriormente). Sobre este inimigo virtual é depositado parte dessa energia agressiva, que todos possuímos, por mais que tentemos negar. Dessa forma, ao depositar as frustrações, raiva e golpes nestes seres imaginários, o potencial de violência das pessoas envolvidas no jogo diminui aqui na vida real. Algumas abordagens da psicologia, como a gestalt terapia, por exemplo, se valem de recursos parecidos para trabalhar questões pessoais mal resolvidas causadoras de sofrimento.

Vencemos nossos monstros interiores os enfrentando e não fugindo deles.

Forte abraço

Jônatas D. P. Leite
Psicólogo – CRP 06/ 95224

(PS: Gostou desse artigo? Se a resposta for sim, participe dos grupos “RPG no Divã” e “RPG Contra a Violência”)

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