Skip to content

APEGO E DESAPEGO

2, 03, 2010

Hoje em dia e em cada esquina há os profetas do desapego, aqueles que acham que você deve se desapegar de tudo, mas que não deixam de fazer o seguro do carro que tanto adoram ou colocar o mais escuro “insufilm” nele. Estes são os falsos desapegados: pregam uma coisa, mas agem de outro modo.

Vou falar de um desapegado de verdade, aquele que vive no mundo do ar. Fui assistir ao excelente “Amor sem Escalas”, cujo nome original é “Up in the Air”. Não entendi por qual razão o nome em português ficou tão ridículo, e principalmente nada expressa o que o filme tem a dizer. Aliás, o filme tem muito a dizer; não é apenas a história de um homem que passa o seu tempo no ar, de cidade em cidade, demitindo pessoas. O filme retrata um homem desapegado de tudo e todos, e tem um sutileza fora do comum, como vi em poucos filmes americanos. Retrata de modo brilhante os relacionamentos humanos atuais: plásticos e frios. Tanto faz se a relação seja feita pessoalmente, por um computador ou celular, o pano de fundo é sempre o mesmo: a frieza. A falta de empatia total com o outro, seja lá quem o outro for. No filme percebe-se este comportamento desapegado claramente: não se ouve o que o outro diz; não há compaixão; o importante é entregar no final de cada demissão um manual, afinal a empresa não poderá ter problemas legais. Mas como disse esta história da demissão não é o fator principal do filme. Logo em seu início aparecem imagens do céu, vistas aéreas de cidades, porém a música que toca fala claramente da terra, ou do apego.

Imediatamente lembrei-me de um texto que li há anos. Ele dizia que quando as pessoas tinham a sua terra elas nunca ficavam desempregas. Hoje é diferente, apenas “fica-se”. Fica-se no emprego, pois somos seres descartáveis. Fica-se nos relacionamentos, pois quando ele der muito trabalho, basta cair fora, e talvez avisar o outro de um jeito fácil, pode ser pelo celular. O mundo dos desapegados funciona desta forma, sem chance para todo e qualquer relacionamento humano. Quando nos relacionamos como gente (por mais ridícula que esta frase possa parecer) o apego sempre tem o seu lugar garantido. A casa precisa ser gostosa, e de preferência espaçosa, para a convivência familiar. É bom ter alguém real ao nosso lado, para os bons e maus momentos. Trabalho não é apenas o lugar de ganhar dinheiro ou cumprir metas, mas de fazer novos amigos e apegar-se ao trabalho de forma amorosa. Relacionamentos nunca foram o local preferido do desapego. Quem assim age está longe de ter características humanas. A casa do personagem do filme é vazia, propositalmente; a mala é prática e tem roupas de uma mesma cor, e ele é um especialista na arte de passar pela alfândega. Impecavelmente desapegado em seu trabalho e na sua vida particular. Junta milhas das companhias aéreas só para chegar à sua meta, mesmo que não saiba o que fará com elas. Conhece os restaurantes de cada uma das cidades que vai, e pouco se importa com aqueles que demite. Ele não se afeta, e aí manifesta a principal característica do desapego: a falta de afeto. Quem se afeta, é afetado sempre. A vida não tem apenas um sentido prático e material. Não dá para colecionar pessoas da mesma forma que se colecionam cartões. As relações plásticas ou pasteurizadas e feitas através de “scripts”, são a marca registrada dos desapegados.

Claro que ser apegado demais também faz mal para a vida. Outro exemplo maravilhoso é o desenho “UP”. Aqui o protagonista precisava desapegar-se do passado para continuar a viver e ser uma pessoa mais nutritiva. Quem se apega ao passado tende a ficar amargo e chato. Às vezes é preciso parar e pensar: Será que isto ainda me serve? Será que o meu apego não está fazendo mal para as outras pessoas?

De novo o limite é o afeto; é ele que nos distingue. O afeto é verdadeiro. Não confunda com gente que trata os outros como “coisa” e se aproxima somente para ganhar. Não é disto que falo aqui. Aliás, quero os manipuladores longe da minha vida. Tem gente que não percebe, de tão carente que é, o riso falso do outro, a conversa simpática e genérica, e outras formas de manipulação dos desapegados.

Quem sente afeto, se afeta com o comportamento alheio.

Só o afeto é que nos faz saber que o apego é importante em alguns momentos e o desapego em outros. Ninguém pode viver desapegado de tudo, e muito menos apegado a tudo. Ambos os comportamentos espelham doenças. A diferença é que o envolver-se dá trabalho, causa dor muitas vezes, e tem gente que prefere tapar com uma rolha o seu sentir. É impossível envolver-se sem se apegar, e talvez não seja à toa que hoje existam tantos solitários convictos alardeando aos quatro cantos o oficio do desapego.

Autora: Suely Pavan – www.pavandesenvolvimento.com.br

No comments yet

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: